A lei do Silva é a lei da selva

José Manuel Ribeiro

Tópicos

Nenhuma multa incomoda os talibãs televisivos, porque sai sempre barato: intimidar os árbitros compensa e bem

Rui Gomes da Silva, vice-presidente do Benfica, estreia a modalidade dos processos disciplinares por comentários televisivos. Há bondade na ideia (vamos chamar-lhe "lei do Silva") de punir os terroristas verbais. Quando há um esgoto a céu aberto, o mínimo que se pode fazer é pôr lá uma placa, mas nem que a tabela máxima prevista no regulamento disciplinar seja aplicada, neste ou em casos futuros, a medida está destinada a ser apenas uma boa intenção. Se perguntassem a um presidente de clube grande quanto pagaria ele para garantir a simpatia dos árbitros, sem nenhum perigo de apitos dourados ou cromados, a resposta seria em milhões de euros, talvez os mesmos que custaria um ponta de lança. Ou seja, muitíssimo mais do que está ao alcance da Liga impor como multa aos "talibãs" das tevês. Sai barato, seja qual for a taxa a pagar. Ficou bem provado nestes últimos anos que a intimidação compensa e que os árbitros, por muito que berrem autonomia e verticalidade, acabam eles próprios a compensar quem mais intimida (não são humanos só para os erros). Neste mês de setembro houve exemplos disso que alguém devia explicar: por que razão uma bola na mão é falta num jogo e no seguinte já não é; por que razão uma sucessão de faltas duras, em hora e meia, passa em claro numa semana e, na outra, vinte minutos chegam para uma expulsão. Acresce que quem mais intimida é quem mais acesso tem ao tempo de antena; quem mais contactos e cumplicidades tem no espaço mediático; quem está mais perto dos centros de decisão e dos canais privilegiados. A atual lei do ruído, que já contrata dignos diretores de jornais de referência para construírem os guiões da bandalheira, é a lei do mais forte. A lei do Silva é a lei da selva.