A improvável onda azul

José Manuel Ribeiro

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Nas bancadas e até nos gabinetes do FC Porto há pouca moral para criticar a letargia da equipa

Terão sido só os jogadores do FC Porto que perderam a vontade de ganhar? Já escrevi neste espaço sobre as insuficiências de Lopetegui e até do seu plantel magnífico, mas a história portista das últimas cinco épocas não se fez apenas de fracos treinadores e equipas sem mística. Estes também foram os anos das ondas vermelhas e das ondas verdes. Lopetegui não inventou o ilusionismo. Ainda ele estava, e estaria, em Espanha e já Jesus encaminhava as legiões de crentes com chavões que desafiavam os factos.

O Benfica jogou sempre um futebol formidável nas conferências de Imprensa. A diferença está no talento e naturalidade com que Jesus promove essas vagas de fundo, mas também na predisposição dos adeptos. Os benfiquistas e sportinguistas precisam muito de acreditar naqueles exageros narcóticos; os portistas, por razões da psicanálise que seria estúpido especular, tendem a precisar do oposto. Benfica e Sporting conseguem, sem esforço, ter estádios que os carreguem; o FC Porto consegue, com um bocejo, ter um estádio que o afunde. Sai primeiro o assobio do que a submissão.

Ao contrário das ondas vermelhas e verdes, as ondas azuis vieram sempre das vitórias, fartas e regulares; foram trinta anos sem necessidade de pegar na equipa ao colo e acreditar antes dela. Não é só no relvado que o FC Porto perde nas comparações. E também não é só na energia dos adeptos que isso acontece, já agora. Das maquinações de João Gabriel e Rui Gomes da Silva à desproporcionada eletricidade de Bruno de Carvalho, também nos gabinetes da SAD há pouca moral para criticar a letargia da equipa.