A geografia de Eusébio

José Manuel Ribeiro

Tópicos

Eusébio não se mede em golos; mede-se em vidas tocadas num momento particular da História

Reforcei esta ideia recentemente, durante aquela triste tentativa de matematizar em golos a distância entre Eusébio e Ronaldo: a minha geração, nascida nos anos 1970, e as seguintes podem, quando muito, especular sobre o impacto que Eusébio teve num Portugal para nós inimaginável. Eusébio foi um desportista, mas também um terramoto e, como os terramotos, deixou marcas na pedra - em todas as pedras - que ainda podemos visitar em conversas com os nossos pais e avós. É infalível: qualquer que seja a cor do coração, falar-nos-ão de um cartógrafo impossível, que definiu a geografia do nosso futebol, mas que também foi transversal; durante décadas, completa e miraculosamente imune às baixezas do facciosismo. Ninguém que viveu tantos anos nas trevas esquece, e muito menos deixa de estar grato, a quem lhes acendeu uma luz, não importa o clube nem o cartão de sócio. Não há como comparar Eusébio, e o contexto de Eusébio, com nenhuma outra figura, com nenhum outro nome, porque não falamos de bola: falamos de tocar a vida das pessoas num momento específico da História. A homenagem que se lhe pode fazer é a constatação de até que ponto se tornou inconcebível que apareça alguém capaz de ser um fator de união remotamente comparável; alguém capaz de pairar acima do ódio e da mesquinhez do futebol, quando nem os partidos políticos admitem, por um segundo, pôr de lado o oportunismo e a tacanhez em nome do bem-estar de milhões.