Uma questão de princípio

Jorge Maia

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A ideia de que todos os árbitros aceitam prendas de todos os clubes não torna a "tradição" mais aceitável

Todos os árbitros aceitam prendas de todos os clubes. Pelo menos terá sido isso que responderam durante o inquérito da Comissão de Instrução e Inquéritos ao "caso dos vouchers" realizado há cerca de um ano. A informação foi divulgada ontem, na sequência da notícia avançada pelo JN segundo a qual a Polícia Judiciária estará a investigar os três últimos títulos do Benfica. A ideia será a de que a oferta de prendas e a respetiva aceitação por parte dos árbitros é uma prática generalizada e, por isso mesmo, aceitável. A questão é que, sendo generalizada, não devia ser aceitável, desde logo por parte das entidades que têm a seu cargo a defesa da arbitragem.

Por muito que aleguem que se trata de uma questão de cortesia, o facto é que da mesma forma que não se oferece uma prenda a um polícia que nos pede os documentos numa operação stop, não há nenhum bom motivo para que os clubes ofereçam prendas aos árbitros e há ainda menos para que os árbitros as aceitem. Aliás, se houvesse dúvidas a esse respeito, o mero facto da investigação conduzida pela PJ incidir sobre os crimes de corrupção ativa e passiva deveria ser esclarecedor quanto ao potencial que esta "tradição" tem para adensar o clima de suspeição sobre uma classe que a maior parte dos adeptos já vê como culpada até prova em contrário. E depois, sendo verdade que este tipo de prendas não os aquece nem arrefece, e não duvido que seja, para quê aceitá-las?