Monstruosidades

O fosso entre ricos e remediados continua a crescer de forma alarmante na Europa

1 - A dependência dos clubes portugueses em relação a receitas extraordinárias, especialmente as que resultam de transferências, é apenas um dos dados preocupantes que fazem parte do estudo "The European Club Footballing Landscape", publicado pela UEFA. Há outras. A relevância das receitas oriundas da UEFA, que representam 18% do total dos proveitos dos clubes portugueses, por exemplo. Se considerarmos que esse dinheiro é canalizado em larga medida para os três grandes, percebe-se melhor não apenas o fosso que se tem cavado entre aqueles e os restantes clubes portugueses, mas sobretudo a tensão que a redução do número de vagas na Liga dos Campeões a partir da próxima temporada provoca na luta pelo título. Ainda assim, mais preocupante do que a visão local que o estudo oferece é aquilo que nos diz sobre o enorme fosso que se continua a cavar entre os clubes europeus mais ricos e os restantes. De acordo com a UEFA, as receitas de TV das seis principais ligas europeias são 11 vezes superiores ao somatório do conseguido pelas restantes 48. Mais do que isso, entre 2010 e 2016 os 12 clubes mais ricos da Europa geraram 1580 milhões de euros de receitas de sponsorização; todos os outros juntos não foram além dos 700 milhões. Recentemente, a UEFA teve de fazer cedências para abafar o projeto de criação de uma Superliga Europeia. Pelo que se vê, não resolveu o problema: limitou-se a adiá-lo, enquanto continua a alimentar o monstro.

2 - Entre invasões de treinos que acabam com agressões aos jogadores e cânticos polémicos desejando coisas inomináveis, é difícil manter a lucidez para perceber que esses episódios são obra de uma minoria dos adeptos de futebol em Portugal. Infelizmente é uma minoria que aproveita o silêncio da maioria para os manchar a todos.