Mestre e tática

Jesus soube capitalizar o conflito entre os jogadores e Bruno de Carvalho. Agora tem de o pôr a render

Talvez Jesus nunca tenha feito tanto para merecer o título de Mestre da Tática como nos últimos dias. Claro que neste caso estamos a falar de tática política, mas de tática ainda assim. Há um antes e um depois do jogo com o Paços de Ferreira que tornam evidente a habilidade do treinador do Sporting para se adaptar às circunstâncias. A forma como passou da neutralidade manifestada durante a conferência de Imprensa de antevisão do jogo para o alinhamento assumido com os jogadores assim que percebeu para que lado pendiam as bancadas de Alvalade, numa espécie de "se não os podes vencer, lidera-os", tem tanto de oportunismo como de inteligência tática. Afinal, o trabalho dele é tirar o máximo rendimento da equipa. Se a única forma de o fazer é afrontando o presidente, pois, paciência. A verdade é que depois da sequência de derrotas em Braga e Madrid, numa altura em que o calendário aperta e ainda há coisas importantes para discutir, nomeadamente com os rivais diretos, a equipa corria o risco de entrar numa espiral depressiva difícil de contrariar. Jesus viu naquela união entre os adeptos e os jogadores contra Bruno de Carvalho uma oportunidade para relançar o sprint até ao final da época e agarrou-a. No fundo, é para isso que Bruno de Carvalho lhe paga. De resto, o facto de o presidente ter recuado ontem, retirando os processos disciplinares instaurados aos jogadores, prova que Jesus escolheu o lado certo. Agora, é só beber inspiração no Roma e escolher a equipa certa para dar a volta ao Atlético de Madrid. Sem William, Coentrão e Bas Dost não vai ser fácil, mas não é por acaso que lhe chamam Mestre da Tática.