Mais vale tarde

Jorge Maia

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O COI deixou de ter margem para ignorar a realidade à sua volta.

O Comité Olímpico Internacional deu-se a si próprio quatro semanas para encontrar uma solução para os Jogos Olímpicos de Tóquio, admitindo finalmente o cenário de adiamento. Há cinco dias, o mesmo organismo insistia que, a quatro meses do arranque previsto dos Jogos, não havia motivos para tomar decisões drásticas. Cinco dias são uma eternidade no cenário de pandemia em que vivemos. Há cinco dias, por exemplo, a Covid-19 tinha provocado cerca de 7400 mortos em todo o mundo; ontem, o número atualizado era de 14 300, mais do dobro. Há cinco dias havia países que ainda debatiam a necessidade de impor regras de isolamento social ou de decretar o encerramento de escolas, bares e discotecas como forma de travar a progressão da doença. A questão é que a velocidade a que a pandemia se espalha pelo mundo, a forma exponencial como cresce e atinge cada vez mais países, até deixar o mapa todo pintado de vermelho, não respeita a lentidão com que organismos como o COI tomam decisões.

Aliás, parece evidente que mesmo este pequeno passo foi muito mais forçado pela violência das reações de atletas e federações internacionais à decisão inicial de manter tudo como estava do que propriamente o resultado de uma tomada de consciência da gravidade da situação por parte dos responsáveis. Entretanto perderam-se cinco dias, que também vão fazer falta aos organizadores para desenharem um cenário de contingência que limite os prejuízos causados pelo mais do que provável adiamento. Thomas Bach, presidente do COI, disse em entrevista ao "New York Times" que "gostaria que a chama olímpica fosse uma mensagem de esperança à humanidade". Ainda pode ser, desde que não a acendam à pressa em cima de um barril de pólvora.