Premium Portugal foi mais formoso do que seguro na Sérvia

Portugal foi mais formoso do que seguro na Sérvia
Jorge Maia

Tópicos

CARA E COROA - Um artigo de opinião de Jorge Maia, diretor adjunto do jornal O JOGO.

1 Primeiro as boas notícias. Portugal reconciliou-se com os golos depois da dieta forçada nos dois primeiros jogos, venceu de forma clara, complicou a vida à Sérvia e deu um passo de gigante em direção ao apuramento ao isolar-se no segundo lugar do Grupo B. Agora basta vencer os jogos com a Lituânia e o Luxemburgo para carimbar o passaporte para o Euro"2020. Escrito assim, parece fácil e esse pode ser o problema. O que nos leva às notícias menos boas do jogo de ontem. Portugal foi claramente superior à Sérvia, mas não conseguiu evitar deixar-se cair na tentação histórica do facilitismo. Bastou chegar ao conforto do 2-0 para baixar de ritmo e permitir aos sérvios reduzir num canto em que toda a gente ficou a dormir. Nova aceleração, novo golo, nova vantagem confortável, novo adormecimento generalizado e os sérvios a reduzirem pela segunda vez aproveitando uma perda de bola proibida. Não é de agora que a Seleção parece sentir dificuldades quando as coisas ficam fáceis, crescendo e diminuindo na mesma razão dos desafios que tem pela frente, sendo tão capaz de olhar nos olhos de qualquer gigante como de se encolher até ficar do tamanho de qualquer anão. Ora, na comparação com Portugal, a Lituânia e o Luxemburgo são anões. Até por isso é importante que a mensagem de Fernando Santos no final do jogo de ontem chegue aos jogadores: Portugal tem de elevar os níveis de concentração se quiser cumprir a obrigação de estar no Europeu de 2020. Afinal, agora que as coisas ficaram mais fáceis, convém não esquecer que ninguém tropeça em montanhas e são sempre os obstáculos mais pequenos que provocam as quedas mais embaraçosas.

2 Há um ano, quando chegou à presidência do Sporting, Frederico Varandas tinha uma enorme margem de tolerância para explorar. Desde logo porque não era Bruno de Carvalho e não ser Bruno de Carvalho há um ano, quando as feridas abertas pelo ataque à Academia, pelo desastre da final da Taça e pela deserção de meia equipa ainda estavam frescas na memória dos adeptos, era obviamente um bom princípio. Depois, não tinha sido sequer ele a escolher o treinador, nem a montar a equipa que teria de enfrentar uma das épocas mais complicadas da história do clube. Sousa Cintra foi chamado a pôr alguma ordem no caos que Bruno de Carvalho deixou atrás de si e fez o que pôde, embora por esta altura seja justo questionar se não fez mais do que o clube podia por não ser dele a responsabilidade de pagar a conta no fim. Varandas apanhou o comboio em andamento e beneficiou do estado de graça que sempre se concede a quem tem de gerir a herança alheia. Até agora. No arranque para o segundo ano de mandato, a margem de tolerância diminuiu drasticamente. Não ser Bruno de Carvalho, por esta altura, está longe de ser uma qualidade redentora e não há mais ninguém com quem partilhar a responsabilidade por uma época que para já fica marcada por um arranque pouco menos do que caótico. Nem sequer a forma como Keizer foi sacrificado, na melhor tradição bíblica do proverbial bode expiatório - o mesmo Frederico Varandas que garantiu no final do jogo da Supertaça não estar preocupado sublinhou agora que a derrota por 5-0 o marcou muito... -, é o suficiente para desviar a atenção da evidência de que a intervenção da SAD no mercado de verão foi errática e tardia, alimentando a instabilidade no plantel, desperdiçando uma boa parte do trabalho realizado durante a pré-temporada e forçando a equipa a voltar aos blocos de partida no início de setembro. Frederico Varandas tem razão quando diz que não foi esta Direção que criou o fosso que separa o Sporting dos principais rivais. Esta época tratará de esclarecer definitivamente se é capaz de o encurtar.