Premium Luís Filipe Vieira tem de agradecer a Bruno Lage

Luís Filipe Vieira tem de agradecer a Bruno Lage
Jorge Maia

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CARA E COROA - Um artigo de opinião de Jorge Maia, diretor adjunto do jornal O JOGO.

O 37.º título de campeão do Benfica saiu melhor do que a encomenda, pelo menos do que a encomenda feita por Luís Filipe Vieira no arranque da temporada. Não será fácil recordá-lo a esta distância e neste contexto de celebração, mas o presidente do Benfica sobreviveu a uma série de erros de avaliação comprometedores que acabam por remetê-lo muito mais ao lote dos responsáveis acidentais da festa que ontem tomou conta da nação benfiquista do que propriamente àquele que se destaca o tamanho das respetivas convicções. O primeiro e mais óbvio foi a insistência em Rui Vitória, não apenas no início da temporada, quando o crédito do treinador junto dos adeptos e do plantel já se encontrava esgotado pelo desgaste da perda do pentacampeonato, mas sobretudo em novembro, após a derrota por 1-5 com o Bayern Munique, quando decidiu prolongar a estadia do treinador no banco encarnado contra a vontade da restante Direção e da larga maioria dos adeptos após ter visto "uma luz" durante a noite. A decisão adiou a entrada de Bruno Lage para o comando técnico da equipa 15 dias, até os autogolos de Jardel e Rúben Dias em Portimão colocarem um ponto final na carreira de Rui Vitória como treinador encarnado. E mesmo nessa altura, a escolha de Lage, agora inquestionável, não parecia convencer completamente o presidente.

Desde as declarações em programas de TV matinais, garantindo que os adeptos ainda iam ter muitas saudades do ex-treinador - imagina-se que não se estivesse a referir aos adeptos do FC Porto - até ao adiamento da confirmação de Lage como treinador definitivo - e não interino - apenas ao fim de mais duas semanas, deixam no ar a convicção de que o presidente encarnado tentou outras opções antes de se entregar nas mãos do homem que lhe salvou a temporada. Lage fez esquecer os erros de casting que representaram as contratações de Ferreyra e Castillo no início da temporada, reinventou o ataque com João Félix e Seferovic demonstrando que era possível sobreviver às intermitências físicas de Jonas, recuperou Samaris para blindar o meio-campo, ajudou Rafa a cumprir finalmente o potencial que todos lhe reconheciam e, tal como Sérgio Conceição tinha feito um ano antes, transformou cada problema numa oportunidade: foi assim com Ferro no eixo da defesa e foi assim com Florentino no meio-campo. Lage transformou uma equipa cheia de dúvidas existenciais numa espécie de rolo compressor, nem sempre seguro atrás, mas quase sempre esmagador à frente, desmentindo pelo caminho aquela máxima que garante serem as defesas a ganhar os campeonatos. É verdade que houve momentos em que os encarnados tremeram e também verdade que algumas arbitragens foram particularmente tolerantes, em especial depois de Luís Filipe Vieira ter tornado Fábio Veríssimo num exemplo para a restante classe após a derrota com o FC Porto na meia-final da Taça da Liga que os portistas venceram. Mas o Benfica de Lage foi a equipa mais forte do campeonato nos momentos decisivos, nomeadamente no clássico do Dragão. Lá está, saiu melhor do que a encomenda, corrigindo os erros cometidos pelo antecessor, mas também pelo presidente de quem é credor de uma dívida de gratidão.