Abalo sísmico

As suspeitas em torno de Paulo Gonçalves levantadas pela operação "e-toupeira" são mais preocupantes do que qualquer email

As violações do segredo de justiça são todas iguais, mas há algumas que são mais iguais do que as outras. Aquilo que, de acordo com o comunicado da Polícia Judiciária, está em causa no caso "e-toupeira" é a corrupção de funcionários judicias para garantir acesso a informação privilegiada sobre investigações em curso, com o objetivo de as monitorizar, antecipar e, eventualmente, condicionar. Portanto, este não é mais um caso de violação do segredo de justiça através de fugas de informação mais ou menos pontuais para jornalistas. Aquilo que temos aqui é um bicho diferente e muito mais perigoso, porque a aliciação de oficiais de justiça diretamente por uma das partes interessada num determinado processo para aceder a informação sobre investigações em curso coloca em causa a própria realização da justiça. De resto, a gravidade dos crimes elencados pela PJ e a firmeza das suspeitas em que se baseou o processo refletem-se nas medidas aplicadas aos arguidos e em concreto a Paulo Gonçalves, assessor jurídico do Benfica, detido para interrogatório. Se essas suspeitas se vão confirmar é algo que apenas poderemos saber mais adiante, sublinhando que também a este caso se aplica a presunção de inocência. Agora mesmo, aquilo que deve ficar claro é que estar em posição de sabotar uma investigação do Ministério Público é mais grave do que manipular a classificação de árbitros ou a nomeação de observadores, colocando em causa não só a verdade desportiva, mas, muito acima disso, a própria aplicação da justiça. O suficiente para nos deixar, a todos e independentemente da cor clubística, verdadeiramente preocupados.