Premium Clássico: uma demonstração de força vale mais que três pontos

Clássico: uma demonstração de força vale mais que três pontos
Jorge Maia

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CARA E COROA - Um artigo de opinião de Jorge Maia, diretor adjunto do jornal O JOGO

1 O clássico de ontem cumpriu a regra estabelecida pelos três confrontos anteriores entre FC Porto e Benfica para o campeonato, nos quais a vitória sorriu sempre à equipa que mais a procurou por mais precisar dela para recuperar de uma desvantagem pontual. Às vezes, não ter alternativa a não ser ganhar ajuda a desligar o complicador. Os dragões foram mais fortes em todas as fases do jogo. Mais seguros a defender, mais agressivos na recuperação de bola, mais disciplinados táticamente, mais eficazes nos duelos aéreos e mais dinâmicos na procura dos espaços. Aliás, o facto de, ao quinto jogo, Marchesin ter finalmente podido descansar das habituais defesas milagrosas, diz tanto sobre a escassez da produção ofensiva encarnada como o protagonismo de Vlachodimos do outro lado diz sobre a quantidade de oportunidades que o FC Porto criou para atacar um resultado que podia ser mais dilatado. De resto, tão importante como a vitória e os três pontos subtraídos a um rival direto, foi o facto de essa demonstração de superioridade ter sido arrancada frente a uma equipa que, pelo menos até ontem, era vista como estando vários passos à frente da concorrência. O FC Porto não ganhou a um Benfica qualquer. Ganhou ao Benfica que não perdia há mais de 20 jogos, que arrancou a temporada com duas goleadas por 5-0, que tinha o melhor ataque e a melhor defesa do campeonato e que estava à beira de uma mão cheia de recordes. Ora, qualquer equipa capaz de ganhar a esse Benfica, de forma clara, na Luz, tem de ser levada muito a sério. O FC Porto mostrou ontem que está vivo e aos pontapés. E o Benfica ficou a saber que afinal não é imbatível. Duas ideias com o poder para mudar a história de um campeonato que, à segunda jornada, já tinha um vencedor anunciado.

2 O Boavista- Paços de Ferreira de ontem arrancou às 21h30, confirmando a tendência normalizada ao longo destas primeiras jornadas de horários que atiram o final dos jogos para muito perto da meia-noite. O caso do jogo de ontem nem sequer é o mais chocante. Paços de Ferreira fica a cerca de meia-hora do Porto, pelo que é possível, mesmo sem ser fácil cumprindo os limites de velocidade, que os adeptos pacenses tenham conseguido voltar a casa no mesmo dia em que saíram. Mas ao longo destas primeiras jornadas já houve vários casos em que jogos com o arranque marcados para depois das 21h00 foram disputados por equipas separadas por mais de 300 quilómetros (Benfica-P. Ferreira, FC Porto-Vitória de Setúbal e Sporting-Braga, por exemplo) ou, como aconteceu com o Tondela-Portimonense, marcado para as 20h15 de uma segunda-feira, mais de 500 quilómetros. Não é complicado imaginar que a logística envolvida em realizar uma viagem de mais de mil quilómetros num só dia para assistir a um jogo seja um fator de dissuasão mesmo para o adepto mais fanático de qualquer clube. Convém sublinhar que os jogos das competições profissionais são marcados em reunião em que participam todos os clubes e os respetivos operadores, pelo que não faz sentido apresentar os primeiros como vítimas ou apontar baterias à Liga. Aliás, foram os clubes que aprovaram os regulamentos em matéria de sorteios, calendário, datas e horários dos jogos. Mas talvez faça algum sentido discutir a independência dos clubes face aos operadores de tv que, na maior parte dos casos, representam a sua principal fonte de receita. A questão, claro, é que horários que afastam o público das bancadas e diminuem as receitas de bilheteira dos clubes apenas servem para aumentar a respetiva dependência em relação ao dinheiro da TV, numa espécie de círculo vicioso que deixa quem vai aos estádios cada vez mais longe das prioridades.