"Uma bonita goleada que traz memórias", escreve Jorge Costa

"Uma bonita goleada que traz memórias", escreve Jorge Costa
Jorge Costa

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Talvez seja o momento para recordar uma célebre vitória do FC Porto em Atenas...

A goleada conseguida ontem pelo FC Porto foi belíssima, fruto de uma grande exibição, e não adianta ter a tentação de lhe roubar esse mérito pelo facto de o adversário, o Nacional da Madeira, estar a passar por um surpreendente momento de desnorte, em crise cada vez mais profunda, que nem o novo treinador, Jokanovic, conseguiu parar. Houve lances bonitos, golos de efeito espetacular, uma articulação perfeita de toda a equipa. Quando assim é, os adeptos saem satisfeitos, como merecem, e veem razão na crença de ainda chegar ao título. Essa foi aliás a primeira ideia que este jogo me deu - um FC Porto virado para si próprio, cumprindo aquilo que se exige a um candidato ao título, cada vez mais candidato.

Essa força do FC Porto é uma realidade, que nem as jogadas externas ao próprio jogo conseguem desviar. Mas uma vitória destas também tem os seus "contratempos". O que vimos nós? O FC Porto a jogar no seu 4x1x3x2, a interpretar com desenvoltura cada fase do jogo e a não descansar quando se percebeu que o assunto estava resolvido. É assim que o FC Porto deve jogar, é este o caminho. Por isso fica cada vez mais difícil compreender porque é que não jogou assim com a Juventus. Sabemos que o clube italiano era favorito e que não se pode comparar a qualidade daquela equipa com o Nacional da Madeira. Fica um amargo de boca, claro, porque se a Juventus tinha todo o favoritismo do seu lado, ou até por isso, perder não seria um escândalo. Ora, assim sendo, jogar para ganhar, arriscando, sem mudar o modelo (jogou em 4x4x2), poderia ter dado outro resultado. Porque este Porto, este que goleou o nacional, poderia ter discutido o resultado com a Juventus. Foi essa a sensação com que fiquei. Pode haver um lado bom nesta vitória e o tema leva-me a recordar uma eliminatória com o Panathinaikos, que venceu no Estádio das Antas por 1-0, nos quartos de final da Taça UEFA; ninguém acreditava que fossemos vencer a Atenas, até porque o Panathinaikos não perdia há muito tempo em casa. Nós acreditámos, o Mourinho deu uma ajuda importante ao dizer no final do jogo que íamos lá ganhar. E fomos, com dois golos do Derlei. Faz 14 anos no dia 20 deste mês, e saímos do estádio sob aplausos dos adeptos gregos. Foi um momento inesquecível. O que vi ontem do FC Porto dá para acreditar num momento assim, pelo menos vale a pena tentar, porque sei que é isso que a equipa vai fazer. Tem quem lhe transmita esse espírito de vitória, de raça - e tem espírito de equipa, que ficou bem marcado pela atitude do Nuno no jogo com o Boavista. Sem discutir a forma, até porque ele próprio já se desculpou, a atitude deixou bem marcado que há um forte espírito de grupo e com certeza que não passou ao lado dos jogadores, porque o treinador saiu em defesa de um colega.O FC Porto deve voltar-se exclusivamente para o campeonato; foi isso que escrevi após o encontro com a Juventus. É isso que deve fazer, ou pelo menos dar a entender que é só nisso que pensam - talvez os italianos se distraiam - e tudo isto sem esquecer isso mesmo, que a prioridade é o campeonato. Deixo ainda uma palavra para o Nacional da Madeira que, sem ser um clube com um grande historial, já inscreveu o seu nome na história do futebol português. Olho o clube com simpatia por todo o trabalho que fez nos últimos anos. No que vi do jogo, em alguns sobressaltos no banco, há qualquer coisa realmente que não está bem. É um sério candidato à descida. Não fico contente com isso. A superação terá de ser tremenda.

JORGE COSTA ESCREVE TODOS OS DOMINGOS NO JORNAL OJOGO