Fora dos relvados joga-se muito mal

Futebol mesmo é no relvado, o resto é só conversa... e normalmente com segundas intenções

O campeonato que corre dentro das quatro linhas está a um nível altíssimo no campo da emoção, desde a luta pelo título, passando pelos lugares europeus, até à fuga da despromoção. Tenho visto alguns jogos, não encontro grandes nuances táticas em relação ao que hoje é o futebol e compreendo muito bem que, pelos objetivos, alguns espetáculos baixem de qualidade, principalmente agora que entrámos na segunda metade da prova e em que os erros começam a ser proibidos e os passos mal medidos passam a ter um peso muito grande na mente dos jogadores, dos treinadores e, no fundo, em toda a estrutura dos clubes. A janela de inverno já fechou e, agora, cada um que vá utilizando as melhores armas rumo a um final feliz.

Valorizo imenso o que se passa no relvado, o que se faz no relvado, em resultado do trabalho que se vai fazendo ao longo da semana. O futebol não é o jogo seguinte, mas sim o jogo de todos os dias, porque quem não olhar para um treino com a mesma concentração com que entra para um jogo vai falhar em algum pormenor, com toda a certeza. O futebol é assim: feito por quem o joga - as táticas são importantes, mas pouco valem se não houver concentração em cada momento, de treino e de jogo. É isso que exijo sempre aos meus jogadores.

Quem andar no futebol com esta atitude, tem tudo para ser feliz. O futebol também agradece. Já não deve agradecer o que cada vez tem mais espaço fora das quatro linhas. Fala-se muito e joga-se pouco fora do relvado. Num país que é também campeão europeu, joga-se com paixão nos relvados e sem delicadeza fora deles. Nos programas televisivos dedicados ao futebol - ou terei de dizer aos erros, que às vezes nem são, de arbitragem? -, ouve-se um rol de disparates, espaços exaustivos dedicados a tudo menos ao espetáculo. Há até uma completa desfaçatez, quase sem a preocupação de não deixar perceber que estamos em presença não de paineleiros, mas de recadeiros dos clubes. Funcionam, no fundo, como peões de comunicação, como uma extensão daquilo que os responsáveis dos clubes pretendem dizer sem darem a cara. O futebol não ganha com esta falta de responsabilidade, porque ao emitir uma opinião num poderoso meio de comunicação como a televisão, um comentador sabe que vai influenciar espectadores. Muito do ódio ou do hábito que os adeptos têm de dizer mal da arbitragem é muitas vezes forçado pelas opiniões que ouvem de pessoas que, supostamente, deviam estar num canal para defender o futebol e não para o beliscarem. Felizmente que estamos num país livre, que cada um tem a sua opinião e deve dá-la, mas a liberdade é também responsabilidade. Sinceramente, acho que quem assim se comporta nos programas de grande audiência não gosta de futebol, gosta do clube A ou B.Como disse, entendo as estratégias, mas também acredito que, por vezes, estas habilidades saem ao contrário e não chegam onde realmente poderiam fazer mossa, às equipas. Tenho alguns bons exemplos, um deles é o Apito Dourado - todo o aproveitamento que tentaram tirar teve uma consequência: uniu ainda mais a equipa do FC Porto, porque os jogadores, habituados a grandes vitórias, sabiam do seu real valor. Não adianta ir por aí. Este campeonato vai ser resolvido, em cima ou no fundo da tabela, pelos futebolistas que têm o prazer de o disputar. As queixinhas e birrinhas por causa das arbitragens são estratégias que estão há muito ultrapassadas; quem faz esse papel, principalmente nas televisões, só está nessa condição de comentador porque há futebol. Então, tratem bem dele.
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