Verdade da mentira

Jorge Coroado

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APITADELAS - Um artigo de opinião de Jorge Coroado.

Com assertiva acuidade, sem especulação ajustada a fazer primeiras páginas, "O Jogo", atenta a vigente suspensão das competições, tem vindo a publicar reportagens sobre limitações e dificuldades vividas pelos mais diversos emblemas e jogadores dos quatro cantos lusitanos. Constrangimentos que, indubitavelmente, sendo transversais à sociedade, têm a particularidade de demonstrar a verdade da mentira em que vivem futebol profissional e o, eufemisticamente, dito não amador. As assimetrias reinantes nas bases associativas e na capacidade de captação de receitas, mesmo só entre ex-libris profissionais, são gritantes. Nos clubes do CdP, uma e outra, de tão irrisórias, não se vislumbram. Dos árbitros de topo pouco se disse. Quais prestadores de serviços, há-os profissionais. Além de prémios de jogo e outros valores, auferem mensalidade fixa. Um segundo grupo não recebe esta última verba. Aos primeiros é possível recorrer ao apoio estatal para trabalhadores independentes (FPF, tão ciosa de apoios aos clubes, devia manter o pagamento). Aos segundos, se tiverem outra atividade, está-lhes vedado o acesso àquele apoio. Quem o fizer terá direito a um apoio financeiro correspondente ao valor da remuneração registada como base de incidência contributiva, com o limite de 1 IAS (438,81€) e adiamento do pagamento das contribuições dos meses em que estiverem a receber o apoio.

Exemplos

Relativamente ao apoio a empresas, o primeiro-ministro, audivelmente, proferiu: "O futebol não é prioridade". Sem conjeturar, dir-se-á que, não ponderando quantas atividades, quantas famílias dependem ou se desenvolvem com base no ocorrido no relvado, apenas se referia ao jogo nas quatro linhas. Inaceitável. Imprensa, apostas mútuas, transportes, hotelaria, etc., são exemplos.

Tendência

Todos temos tendência para esquecer as lições elementares, ou então não sabemos quando aplicá-las. O profissionalismo na arbitragem é uma treta. Apesar dos valores retributivos praticados e benefícios fiscais existentes, crises como a ora vivida são desconsideradas. Mais que insurgir-se contra "bocas", a classe devia preocupar-se em prevenir situações idênticas.