Jogos Combinados

Jorge Coroado

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Posso contar pelos dedos de uma mão e se calhar sobram, em algumas situações fui confrontado com jogos disputados a passo

ão foi de modo impune e casual que no dia 27 de maio, nestas páginas, referi a realização de um seminário sob égide do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), contando com a colaboração de reputados organismos internacionais e APAF, no firme propósito de abordagem descomprometida mas objetiva de conceitos sobre "Match fixing", subordinado ao lema "O Estado do Futebol em Portugal - perceções dos árbitros portugueses" onde, como já foi mencionado, foram apresentados e discutidos resultados de inquérito absolutamente anónimo, concretizado pela APAF junto dos seus associados, de onde resultaram 307 respostas válidas (25,9%) para um universo de 1185 membros. Na ocasião, lamentando que a associação de classe não tenha incluído os árbitros de primeira categoria realcei que as respostas às diversas questões suscitavam alguma curiosidade, apesar de a própria organização lamentavelmente reconhecer, não conferirem rigor científico por franca, notória e visível "retração" dos inquiridos. A marcha inexorável do tempo, através de entidade externa e credível, deu a conhecer à opinião pública sérias dúvidas sobre a transparência de resultados em alguns jogos de um dos principais campeonatos profissionais do burgo. Associar um e outro evento não se afigura curial, mencionar o primeiro olvidando o segundo revela-se de pior gosto. Em diversos itens daquele inquérito, embora de modo contraditório porque incoerente em algumas circunstâncias, admite-se manipulação de resultados e aflora-se falta de transparência na gestão da modalidade em Portugal. Estas justificações não são de hoje nem de ontem, elas têm perdurado ao longo dos anos. O conluio tácito entre emblemas sobrevém, sobremaneira, no final das competições. Não sendo muitas, posso contar pelos dedos de uma mão e se calhar sobram, em algumas situações fui confrontado com jogos disputados a passo, onde a bola quando na posse de uma equipa não saía daquele meio-campo, enquanto a equipa contrária dificilmente passava linha divisória do terreno. Situações tristes, atentatórias da verdade desportiva, normalmente subjugadas não ao interesse desportivo dos envolvidos, antes condicionadas à verdade necessária ditada pela exigência ditatorial dos euros. Saber-se da manipulação de resultados na segunda Liga não pode deixar ninguém indiferente. Os procedimentos malfeitores não são estanques e restringidos àquela competição, qual epidemia, rapidamente podem derivar para níveis superiores. No estudo em causa, na ladainha usual em ocasiões semelhantes, os inquiridos voltaram a assumir serem os árbitros o elo mais fraco da modalidade. Porquê? Quais os fundamentos? Será elo fraco o cidadão que assume função consciente do isolamento a que estará sujeito? Qualquer árbitro, em qualquer jogo, dá inestimável quanto importante contributo à causa da estabilidade emocional de muitos milhares de pares seus. Sujeitar-se e por vezes motivar as invetivas de que é alvo, permitir com sua ação que inúmeros chefes de família, diretores empresariais, trabalhadores anónimos sobrecarregados de sem número de preocupações e frustrações descarreguem num estádio de futebol e sobre si próprio todas as tensões contidas é indubitavelmente próprio de alguém verdadeiramente muito forte.

PS.: No meio de tantos eu seria mais um, porém, declaro por minha honra não ser candidato à direção da LPFP.