Luz & sombra

Joel Neto

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A família é a melhor coisa que temos na vida, em todos os casos menos naqueles em que é a pior. A maior parte das vezes, leva-nos ao colo durante a infância, faz de nós homens, deixa-nos levantar voo mas põe-nos um fio de Ariadne na mão, de modo a que possamos voltar sempre que for preciso, ao primeiro solavanco ou simplesmente quando não der mais. Outras vezes, infelizmente, é a bola de ferro presa ao nosso pé, cerceando-nos os movimentos, puxando-nos para baixo, lembrando-nos que somos estúpidos e fracos - e que, mesmo que não o sejamos, alguém lá atrás continuará a deter o segredo capaz de nos desmascarar. Lembrei-me disso ontem, ao ler sucessivamente sobre Paulo Machado e Carlos Mané. Na hora de explicar por que deixara crescer o bigode, o português do Olympiacos não invocou as modas, nem uma aposta, nem sequer uma simples graçola do Facebook: invocou o pai que o levava ao futebol e o irmão ao lado do qual se fez jogador. Pelo contrário, Carlos Mané acordou com uma manchete, logo reproduzida um pouco por todo o lado: o pai seria traficante de droga, o mais significativo traficante de droga do bairro onde o filho cresceu - e agora estaria em fuga, humilhando e tornando a humilhar o jovem jogador do Sporting no momento em que, à custa de trabalho e talento, este vive a sua primeira glória. A minha solidariedade é igual para ambos. Todos os homens merecem um pai de que se orgulhar. Mas, se não se puderem orgulhar dele, então que ao menos possam orgulhar-se de si próprios. O bigode de Paulo Machado comove-me. Mané usar o seu próprio rosto, tão parecido consigo como com nenhum outro homem, também.

Dia de festa

Não importa agora como conseguiu o FC Porto dar a volta à eliminatória com o Eintracht, ou mesmo se se justificava sofrer cinco golos deste adversário. O FC Porto passou nas piores condições anímicas possíveis e isso significa pelo menos duas coisas: que os jogadores assumiram as suas responsabilidades e que o treinador não pode ser dispensado agora. Talvez continue com trela curtíssima, como se diz nos filmes - e talvez isso até venha a revelar-se contrário às pretensões últimas do FC Porto. Mas este é um momento de celebração. É preciso saber desfrutar dele.