Sim, é obsceno

Joel Neto

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Figueiredo acertou uma

O argumento de que regulamentar as apostas em Portugal vai reduzir as possibilidades de manipulação de resultados não colhe. A manipulação de resultados funciona tanto sobre sistemas regulamentados como sobre sistemas clandestinos: é obra de profissionais treinados e assimila sem dificuldade as regras de qualquer estrutura, desde logo porque funciona à margem dela. Se querem um exemplo quase benigno, nunca foi por a Lotaria ser legal que deixou de existir Jogo do Bicho. Em quase tudo o resto, porém, Mário Figueiredo tem razão. Até porque o que aqui está em causa não é legalizar ou não as apostas: é conservar ou não o jogo no estrito domínio do oligopólio Santa Casa da Misericórdia/Casinos. Urge desfazê-lo: por uma questão de justiça, por uma questão de oportunidade económica e, já agora, por uma questão de fiscalidade também. Não sei se a cifra de cem milhões de euros de impostos está bem calculada. Não acredito que parte dos apostadores não continuasse a jogar através de casas estrangeiras, assim como não acredito que a legalização de novos modelos de apostas não provocasse a derrocada do Totobola, hoje com atividade residual, mas ainda assim com faturação não negligenciável. Agora, que é obsceno, é. É obsceno andar a massacrar a classe média e os pensionistas e, depois, não regulamentar um jogo que existe, que nem sequer é propriamente ilegal e que apenas é mantido na marginalidade para proteger a oligarquia do costume. É obsceno e é preciso ter lata.

Sem espinhas

ou com elas?

O que nós arranjámos foi isto. Quando Platini diz que "se calhar a FIFA alargou o prazo [da votações para a Bola de Ouro] para agradar a Ronaldo", o que está a insinuar é que a pressão que andámos a fazer estes meses todos, insultando Blatter e invetivando a Pepsi e reagindo com ódio a todo aquele que pudesse manifestar preferência pelos adversários, resultou. Portanto, Cristiano Ronaldo ganha, mas com coação. Ou seja: ganha mais ou menos. E eu acho que Ronaldo merecia ganhar este ano em absoluto, com os aplausos rendidos de toda a gente, sem espinhas ou torceres de nariz. Platini já tem o seu torcido e só o destorcerá se o português perder. O que seria irrelevante se não se tratasse do presidente da UEFA e próximo presidente da FIFA.