Cuidado, Platini

Joel Neto

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Ou "Cuidado com Platini"

Por esta altura, já todos percebemos que Platini é aquilo a que os americanos chamam um "maverick": um rebelde cujas ações e pensamentos são ditados pela sua própria consciência, em vez de pela norma ou por eventuais grupos de pressão. Acresce que se trata de um ex-jogador dos maiores que o futebol conheceu, pelo que a sua paixão pela modalidade dificilmente poderá ser posta em causa. Mas provoca-me, mesmo assim, sentimentos contraditórios.

Quando o ouço dizer que sente asco de quem investe no futebol com intuitos lucrativos, reforçando logo a seguir a urgência da proibição da partilha da propriedade de passes de jogadores ou a necessidade de agravar ainda mais as penas para os infratores do chamado "fair play financeiro", já me entusiasmo menos do que quando o ouço atacar o Olho de Falcão ou a ideia de utilizar árbitros estrangeiros em jogos das ligas nacionais. Platini pode ser um "maverick", mas não pode andar à rédea solta.

Quer moralizar a modalidade? Faz bem. Quer devolver-lhe o cariz de jogo de família, gerido por voluntários em comissão de serviço cívico? OK. Mas o futebol empenhou-se durante muitas décadas em construir o edifício sobre o qual assenta a sua sobrevivência. Mudar, tudo bem. Mas devagar. Mudar à "blitzkrieg", como os alemães chamaram à sua guerra-relâmpago, pode ser o suicídio da modalidade e será pelo menos o homicídio de muitas das suas forças motrizes. Há que dar-lhes a oportunidade de se reconverterem.