Chegou o dia: o último artigo

Joel Neto

Tópicos

FORA DA CAIXA - A última crónica de Joel Neto em O JOGO.

Houve um tempo em que, açoriano a viver em Lisboa, eu passava a Serra de Aire e sentia-me noutro país. O Norte era-me como que estrangeiro, o que batia certo com o que eu sabia e conhecia dele: nada.

Hoje, quando vou ao Norte, vou a casa. Tenho amigos nos jornais, nas rádios, nas televisões. Tenho o meu próprio roteiro de teatros, restaurantes, bares e lugares. Às vezes, há alguém que me reconhece na rua e quase sempre o que me dispensa é o mesmo carinho que me dispensam na minha própria terra.

Inclusive quando escrevo coisas menos simpáticas sobre o clube que essa pessoa gosta de ver ganhar.

Escrevi para este jornal - tive de ir conferir a pasta dos textos antigos - durante 14 anos. Sobre futebol, primeiro na "5ª Coluna" e depois nesta "Fora da Caixa" (que foram sempre a mesma rubrica), há dez. Esta é a última vez, pelo menos por ora.

Espero este dia quase desde o início. Quando me mudei dos bairros históricos de Lisboa para a freguesia da Terra Chã, em busca de uma vida mais simples, mais barata e mais inteligente, fi-lo também para me prevenir contra ele. As indústrias de que eu subsistia, os livros e os jornais, estavam em ruptura. Era inevitável que as encomendas se reduzissem.

Nestes nove anos, vivi de tudo. Trabalhei para jornais, televisões e rádios e deixei de trabalhar para esses jornais, televisões e rádios para trabalhar para outros jornais, televisões e rádios ainda. Escrevi livros sem êxito, livros com êxito e até livros premiados. Deixei morrer um casamento e apaixonei-me de novo.

O que nunca deixou de estar lá foi esta coluna. Este jornal. Que me guardou até ao último dia em que lhe foi possível e me tratou sempre como só os melhores: como um membro da família.

A minha gratidão é infinita: a "O Jogo", à direcção de "O Jogo" e aos leitores de "O Jogo". Felizmente, o meu trabalho é o da memória.