Sofista de Carvalho

Bruno domina a retórica e sabe ter o tempo do seu lado e do desvanecer das razões para a contestação

Mentiras, irregularidades, coação, risco de colapso financeiro e até traição - ou deserção, suprema desonra para um militar! -, a todos estes argumentos recorreu ontem Bruno de Carvalho minutos após o anúncio da marcação de uma assembleia geral extraordinária para 23 de junho (que, passe a piada, pode muito bem levar a noite de São João para Lisboa...) e horas depois de Frederico Varandas (o acusado de deserção) anunciar que se demitia de diretor clínico do Sporting para ser candidato à presidência. O presidente dos leões domina a retórica - até na forma como muda a voz para um tom de lamento, de vitimização - e quando fala, fá-lo lentamente, com a plena consciência de que o tempo joga a favor dele. Quanto mais tempo passar sobre as críticas à equipa em momentos críticos da época - véspera da última jornada, em que era vital garantir a ida à pré-eliminatória da Champions; e da final da Taça de Portugal -, mais parecerá que a ideia de ter terminado o tempo de Bruno de Carvalho se sustenta em meras opiniões dos opositores. Assalto ao poder, disse também, numa declaração que parecia inspirada no "Depois de mim, o dilúvio" de Luís XV, capaz de deixar orgulhoso qualquer bom sofista da Grécia Antiga, esses a quem apenas interessava convencer os outros sem olhar à ética e à verdade contida nas suas palavras e que tanto preocupava certos filósofos.

Com todo este ambiente de convulsão, e não obstante a oficialização dos reforços Marcelo e Raphinha e do diretor-geral Inácio, parece claro que o Sporting - quem será o treinador? - parte atrás dos rivais para a próxima época. E isso costuma ter consequências graves. Mas por muito chato que seja, a vida continua e amanhã será outro dia...