O futebol que não se vê

O excesso de mediatismo de alguns tem ajudado a abafar, de forma injusta, exemplos positivos que convivem no mesmo universo

Um treinador que defende árbitros, que admite ter desperdiçado a carreira de futebolista por culpa própria e que fala de racismo tão abertamente como do declarado benfiquismo do presidente do clube onde trabalha não é normal. Pelo menos neste futebol de guerrilha permanente, em que parece imperativo dormir com um olho aberto e acreditar que o ataque é a melhor defesa, um futebol de uma intolerância ao nível da que enfrentamos diariamente no trânsito das cidades e que excede em muito a rivalidade e a clubite aguda.

Na entrevista publicada nesta edição, Pepa é a personagem de que se fala no início do texto e assemelha-se à antítese do futebol descrito logo a seguir. O desassombro revelado pelo treinador do Tondela talvez explique parte do "milagre" de uma equipa que depois de na época passada ter evitado a descida no último suspiro (é certo que fruto de uma ponta final inacreditável, com cinco vitórias em seis jogos), agora navega em águas tranquilas. Mais calma ainda tem sido a viagem do Chaves, orientado por outra figura estranha a esse futebol português mais mediático - o "mestre zen" Luís Castro -, protagonista de feitos como a reviravolta de anteontem, frente ao Vitória de Guimarães num jogo com sete golos, ou o ponto final que colocou nos 15 meses de imbatibilidade caseira do Marítimo no campeonato. O próprio técnico maritimista, Daniel Ramos, cabe perfeitamente - como outros - nesta lista de exemplos e discursos positivos que habitam num mundo que dá mais voz aos negativos.

Talvez, enquanto metáfora da vida, o futebol não tenha de ser justo e seja apenas assim como a própria vida. Ou talvez possa comparar-se a um icebergue, cuja percentagem visível esconde os outros 75 por cento que a sustenta.