Lições de Bernardo

João Araújo

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A paciência salta aos olhos, mas há muito mais a aprender e a refletir com esta espécie de manual condensado

Apesar dos 22 anos e dos 1,73 metros (com que baila entre gigantes), Bernardo Silva é um amontoado de lições. Desde logo a que qualquer chinês conhecedor de provérbios mais gostaria: sim, a paciência tem sido uma das maiores virtudes deste outro "pequeno genial" e só não arrisco dizer ser a maior porque poderia ser desmentido no imediato pelo talento. O que leva a uma das questões há muito debatidas no futebol e de que este é um ótimo exemplo - a aposta generalizada em jogadores maiores, mais fortes e mais rápidos nos escalões de formação com o objetivo de obter resultados desagua no desperdício de qualidade técnica, inteligência e não raras vezes de capacidades físicas, já que muitos jovens crescem tardiamente e, depois, superam outros mais precoces. Bernardo Silva soube esperar, apesar de, como o próprio reconheceu recentemente, ter jogado menos do que gostaria nas camadas jovens do Benfica, onde era relegado para o banco por matulões. E soube aguardar pela oportunidade, também, quando, já na equipa principal, recebeu o mesmo tratamento.

No Mónaco, cresceu com a equipa e Leonardo Jardim deu-lhe asas, explodindo e provando que neste futebol de superatletas o tamanho não é tudo. A alcunha de "Mini Messi" será o lado folclórico para perceber por que razão Guardiola (a quem daria jeito outro...) o foi buscar, apostando num jogador diferente, capaz de usar a genética de número 10 e a inteligência para, mesmo que a partir de uma ala, romper as folhas quadriculadas em que tantos treinadores transformam o relvado.

Quando se lamenta a falta da "escola" do futebol de rua, Bernardo Silva tem um novo palco para mostrar que arte e músculo não são incompatíveis no mesmo "bairro".