Benditos túneis

João Araújo

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Depois das muitas coisas inusitadas que sucederam ao longo deste ano, ainda há algo que nos mantém os pés no chão

Este 2016 foi um ano estranho. E esqueçam o presidente eleito dos EUA, que não é para aqui chamado porque, ao que consta, não sabe sequer dar um chuto numa bola... Este 2016 foi quase uma lavagem da alma, foi como se os portugueses tivessem perdido a vergonha - no bom sentido, claro está -, como se tivessem deixado de lado a proverbial modéstia (tantas vezes mais vaidosa do que a própria vaidade) e resolvessem assumir as suas qualidades e capacidades. Foi como se este país famoso pelo desenrascanço, pelos biscates e outro tipo de "artistas" tivesse de repente assumido que é um vencedor.

Desde o título europeu de futebol de seniores ao de sub-17, ou ao inédito apuramento da Seleção feminina para uma fase final de um Europeu, passando pelos "bitaites" que agora mandamos às agências de rating que há bem pouco tempo nos dobravam a espinha ou até pelo presidente sorridente, quase tudo neste 2016 parece bom e nos faz esquecer o tradicional cinzentismo nacional. Até prémios internacionais de marketing são agora petiscos para este apetite voraz do Portugal positivo. Como se, muito por força do futebol, tivéssemos percebido que somos realmente 11 milhões...

Este 2016 foi estranho, mas apesar de alguns excessos de otimismo - como imaginar que o campeão de inverno sairá da Taça da Liga... - e outros de competência - como o CD emitir decisões céleres... -, felizmente ainda há coisas que nos mantêm os pés assentes na realidade. Como os túneis do nosso futebol, a lembrar-nos de que este país ainda é... este país.