Ataques de fisga contra o couraçado

Ataques de fisga contra o couraçado

Houve um tempo no ciclismo em que os grandes sabiam ser magnânimos, permitindo que pequenos pudessem festejar vitórias de etapa se isso não se intrometesse no grande objetivo da vitória final. Se tivesse corrido nesse tempo, certamente Mikel Nieve não teria deixado a imagem de desalento que ficou da chegada de hoje a La Rosière, a primeira realmente em alto deste Tour. A 300 metros da meta, Nieve foi ultrapassado por Geraint Thomas e, logo depois, por Froome e Dumoulin, altura em que nem esboçou uma tentativa de resistência. A guerra pela geral vitimou o escalador espanhol, frustrado após um dia em fuga e a quem só faltaram 300 metros para saborear os seus 15 segundos de glória.
Neste tempo, no entanto, vive-se sob uma ditadura, que fez questão de mostrar como domina o pelotão com punho de ferro na primeira oportunidade. A Sky ganha mas não de uma forma qualquer: tem especial prazer em esmagar a concorrência, que, pelo menos por enquanto, pouco mais pode fazer do que apostar em táticas de guerrilha para tentar detectar pontos fracos naquele rolo compressor. Foi o que fez a Movistar a meio da etapa, ao lançar o eterno jovem Valverde ao ataque, beneficiando da ajuda de Soler, que ia em fuga, e foi o que fez a Sunweb, quando Dumoulin atacou a descer, numa tentativa de surpreender a organização e programação da Sky.

Só que a solidez da equipa britânica, que entra na última subida com cinco elementos quando as outras formações têm apenas um ou dois, parece não ter fissuras. Dir-se-ia que chega a ser um domínio insultuoso esta forma de correr, que faz primeiro e terceiro lugar numa dura etapa nos Alpes, assumindo os dois primeiros degraus da classificação e deixando aos outros ditos candidatos o papel de pequenos David, armados de uma mera funda ou uma fisga...

Amanhã, quinta-feira, chega-se ao Alpe d'Huez, depois de subir a Croix de Fer e a Madeleine. É uma espécie de "rien ne va plus" do ciclismo, ainda que pareça haver pouco a fazer para derrubar a ditadura da Sky. É claro que não foi por isso que outros, noutros tempos e lugares, deixaram de tentar!