A Seleção e o nosso descontentamento

A Seleção e o nosso descontentamento
João Araújo

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Quantos imaginariam, há umas décadas, que a Seleção seria um modelo de virtudes?

Longe vão os tempos em que a Seleção portuguesa era uma fonte de desilusões e notícia pelos piores motivos - os apuramentos para as fases finais não eram conseguidos ou, quando eram, faziam-se figuras tristes; havia os chamados grupinhos, com a rivalidade entre os três grandes a fazer-se notar (e a ter reflexos) em campo; o futebol jogado, em geral, não entusiasmava e até quando isso acontecia as coisas acabavam mal. "Fado lusitano", "estivemos quase", "ai se aquela bola entrava..." As explicações e justificações andavam invariavelmente em torno destes conceitos tão portugueses como, sublinhe-se, a capacidade de converter em resultados o talento e qualidade que sempre foram reconhecidos ao jogadores criados neste retângulo à beira mar plantado. Mérito de Fernando Santos, um pragmático-místico que talvez por isso alie o melhor de vários mundos.

O triunfo no Euro"2016 foi como plantar uma bandeira no Evereste e tirar a respetiva foto para o comprovar, mas nem todas as conquistas são tão mediáticas ou grandiosas: a goleada de ontem à Hungria foi mais uma página para o livro de louvores do engenheiro, porque num momento em que a Seleção não podia falhar... não se contentou com o suficiente 1-0. Quis mais! E nesta altura da temporada, em que muito se joga em tantos países e tabuleiros diferentes, não é nada fácil manter os jogadores motivados para passarem um jogo inteiro em alta rotação.

Só que ao contrário desses tempos idos, em que a Seleção era um espelho da divisão, agora é o oposto. A equipa nacional é um oásis no teatro de guerra em sua volta, um paraíso no meio do conflito interno bruto. Os distúrbios e insultos antes do jogo de ontem, envolvendo Marta Soares e Fernando Madureira, são o verdadeiro estado de coisas a que se chegou no futebol português - pelos incidentes e suas consequências... de fotos e comunicados nas redes sociais a "ajudarem" a deitar gasolina no incêndio!

Como dizia o outro, um dia alguém vai magoar-se...