A pressa foi inimiga da pressão

João Araújo

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Os dois primeiros responderam bem às dificuldades que tinham pela frente. O Benfica, elogiado pela solidez defensiva, continua com apetite voraz no ataque

Primeira jornada do pós-clássico, a 31.ª encerrava a curiosidade de perceber como Benfica e FC Porto iriam reagir ao nulo com que saíram do Estádio da Luz e que tão diferentemente serviu as ambições com que tinham entrado no estádio benfiquista. Comum aos dois rivais havia, nesta última ronda, a pressão a que ambos estavam sujeitos, ainda que com contornos distintos - as águias jogavam um dia antes dos dragões e num campo onde nas últimas cinco deslocações tinham colecionado mais empates do que vitórias. Além disso, e do polémico triunfo da primeira volta sobre o Gil Vicente e da nomeação do mesmo árbitro, o Benfica deparava-se ainda com o fantasma das deslocações ao norte do país, onde sofreu as três derrotas do campeonato (Braga, Paços de Ferreira e Vila do Conde).

Falando de fantasmas, também o FC Porto tinha um bem grande para exterminar, daqueles que, tal como o do rival, os treinadores se esforçam por fazer crer que só interessam a jornalistas e adeptos, mas que também são comentados entre as quatro paredes dos balneários. É que além de jogarem no dia seguinte ao líder, com a necessidade absoluta de não cederem qualquer palmo de terreno, os dragões contabilizavam dez jogos consecutivos sem triunfos a sul do Mondego!

Os resultados dos dois jogos e o destino dos três pontos dirão que ambos se saíram bem, mantendo o "statu quo" na corrida ao título, ainda que a aproximação à meta favoreça quem pedala na frente. A capacidade de resposta à pressão a que estavam sujeitos, qual escalada de armamento num conflito bélico, permite até fazer um paralelismo com o que sucede na liga do país vizinho, onde Barcelona e Real Madrid se empurram um ao outro e já levam uns incríveis 105 golos marcados cada. Os cardíacos que me desculpem, mas os espectadores saem a ganhar...

Onde se diferencia - e muito - esta dupla que dá mostras de não desarmar na corrida ao título é no caminho percorrido. O FC Porto só chegou ao 2-0 em Setúbal no primeiro minuto dos descontos; o Benfica, pelo contrário, voltou a mostrar uma tendência que se acentuou na segunda volta do campeonato, uma espécie de medicina preventiva contra o nervosismo que se possa instalar na equipa à medida que o objetivo do bicampeonato cresce no horizonte: procurar (e conseguir) o tento da tranquilidade com sofreguidão.

As palavras e as estatísticas têm elogiado a consistência defensiva da formação de Jorge Jesus, mas a verdade é que esta foi a sétima vez em oito jogos na segunda volta em que marcou três ou mais golos e que o da tranquilidade surgiu menos de dez minutos após o primeiro. Sucedera com Académica, Nacional, Arouca, Estoril, Moreirense e Boavista, praticamente o dobro das vezes da primeira volta.

Se nos clássicos estiveram mais comedidas, nos restantes jogos as águias apostam cada vez mais nesta espécie de vacina antistresse, que é uma autêntica subversão do conhecido provérbio chinês.