A força de Thomas e uma tirania com enredo

A força de Thomas e uma tirania com enredo

Um ciclista formado na pista a ganhar no alto do Alpe d'Huez, ao cabo de uma etapa duríssima com três subidas de categoría especial e no derradeiro dia de um tríptico de etapas nos Alpes, parece uma contradição. Se lhe juntarmos que foi uma chegada ao sprint com cinco corredores, é mesmo para torcer o nariz. Porém, mais do que traduzir um ritmo lento, esse dado dá conta da força da Sky, que tudo controla e abafa.

Wiggins também veio da pista (e a ela voltou) e ganhou um Tour, mas sem esta exibição de poder do corpulento galês Geraint Thomas, pela segunda jornada consecutiva a impor-se a mais de 1800 metros de altitude. Milagres vindos da Sky (!?), que deu ontem a imagem de quem é o verdadeiro líder da equipa quando Bernal abandonou a cabeça do grupo do camisola amarela e foi este, Thomas, quem deu a cara ao vento em perseguição do escapado Kruijswijk e em defesa do chefe, pois claro, Froome.

Se Dumoulin mostrou, mais uma vez, ser o único capaz de aguentar (e desafiar) o andamento dos dois Sky, talvez a verdadeira notícia do dia tenha sido o momento de menor fulgor - que é diferente de fraqueza - de Froome, quando atacou mas não conseguiu mais do que alguns metros de avanço e depressa foi alcançado. Vã glória para o holandês Dumoulin, no entanto, já que agora há três dias para descansar antes da aproximação aos Pirenéus.
Thomas lidera com uma vantagem razoável e está em melhor forma do que Froome. E se o próprio amarela questiona a sua capacidade numa prova de três semanas, também o desgaste que teve o Giro em Froome e Dumoulin poderá ser ainda chamado à conversa. Mas para isso será preciso esperar mais uma semana e rezar para que o Tour não se limite a um espetáculo de voyeurismo em que meio mundo torce para um desfalecimento em direto da equipa mais forte. Haja quem seja capaz de a encostar às cordas, a bem do ciclismo e do espetáculo.

As tiranias no pelotão não são de agora. O "canibalismo" sobre rodas tem décadas - leia-se Merckx ou, mais recentemente, Armstrong (e por este nome se percebe, talvez, uma certa antipatia gerada pela Sky). Este mesmo Alpe d'Huez, em 1986, foi palco de uma das maiores demonstrações de insolência e superioridade por parte de uma equipa, a La Vie Claire, patrocinada por Bernard Tapie, que viu os dois líderes, Hinault, vencedor do Tour pela quinta vez no ano anterior, e Lemond, de amarelo e que venceria o seu primeiro de três, cortarem a meta de mãos dadas na frente. Só que ao contrário de agora, em que nada parece abalar a rigidez programática da equipa britânica, essa foi uma chegada com história e nunca devidamente esclarecida. Nessa etapa, Hinault atacou e seria depois alcançado por Lemond nas 21 curvas da subida; no final, disse ter sido para eliminar a concorrência e retribuir a ajuda do norte-americano no ano anterior, mas tratando-se do indomável bretão, apetece mesmo acreditar que se tratou de um golpe de teatro falhado...