A pandemia que interrompeu o bom caminho do Santos

A pandemia que interrompeu o bom caminho do Santos
Jesualdo Ferreira

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TÁTICA DO PROFESSOR - A crónica semanal de Jesualdo Ferreira

1 - Desilusão é um estado de espírito que me acompanha no dia a dia, para além de uma profunda tristeza pelo drama que as pessoas estão a viver, em Portugal ou no Brasil, nos quatro cantos do mundo. Nunca pensei que na minha longa carreira tivesse de apanhar com uma interrupção deste género; nunca pensei ficar a meio de um projeto (para já, interrompê-lo) por razões que nada têm a ver com o futebol.

Ao longo da minha carreira tive mais sucessos do que frustrações, sendo que o sucesso de um treinador tem de ser analisado com honestidade, ou seja, sob vários prismas e tomando em linha de conta uma série de premissas. Por exemplo, no FC Porto, em quatro anos, fiz aquilo que as pessoas esperavam de mim: havia dois objetivos fundamentais em cada época, ganhar o campeonato e passar a fase de grupos da Champions. Em quatro anos, em oito desses objetivos, falhei um. Pode-se dizer que tive sucesso.

No Braga fui ou não bem sucedido? Atendendo às condições que tinha, ao plantel, ao orçamento do clube, pode-se dizer que tive sucesso, no entanto, não ganhei nada. Outros vieram a seguir, com mérito próprio, com outros argumentos, com outros plantéis e conseguiram conquistar títulos.

Quando estive no Zamalek, do Egito, e mesmo no Al Sadd, do Catar, conquistei títulos, era isso que as pessoas esperavam quando me contrataram e foi isso que eu tentei fazer, com os argumentos que me deram. Depois desses argumentos há o nosso trabalho, a nossa qualidade, a capacidade de reconhecermos que amanhã temos que ser melhores do que hoje. E disso eu tenho a certeza/consciência: fui sempre melhor em cada ano que foi passando.

2 - Quando aceitei o convite do Santos, depois de terem surgido outras propostas para outras paragens, sabia ao que vinha. Para já, sabia que vinha para um clube com um grande historial, que já ganhou tudo, ou seja, nunca viria fazer algo mais do que outros fizeram no passado, engrandecendo o nome deste clube que mesmo em Portugal nos habituámos a admirar desde há muitos anos, e não foi só pelo mítico Pelé.

O Santos é um clube que gere facilmente simpatias. Mas ao aceitar este convite também sabia que o clube não tem hoje argumentos tão fortes quanto outros rivais. Mas, com este plantel, propus-me conquistar títulos, num país onde não é fácil um treinador estrangeiro vencer. Jesus, no início, foi muito mal recebido, mas teve argumentos, porque o clube também os tinha e isso ajudou, naturalmente, para chegar ao sucesso. E conseguiu.

Não foi para mim um espanto a agressividade com que fui recebido no início, principalmente pela crítica especializada. Estava à espera disso, estava preparado para isso, e convencido de que iria conseguir alterar algumas ideias que as pessoas formaram sem terem pesado devidamente os argumentos do Santos, sem darem um tempo, para então sim fazerem a sua análise.

A verdade é que essa agressividade foi aliviando e transformou-se até em empatia. Para isso muito contribuiu a carreira que a equipa foi fazendo; quando aconteceu a interrupção, o Santos estava, está, em primeiro no campeonato Paulista e lidera também o grupo na Taça Libertadores, com duas vitórias. Ou seja, os objetivos estavam a ser conseguidos.

A equipa estava no bom caminho, como o demonstrou no último jogo, com o S. Paulo, uma equipa fortíssima, e apesar da derrota. Mas enquanto estivemos 11 contra 11 estávamos a vencer e ninguém sabe como teria ficado o resultado se não fosse a inferioridade numérica. Portanto, é grande a minha desilusão com esta interrupção forçada, mas necessária, porque a equipa estava no bom caminho. Agora estamos todos na expectativa de um regresso, espero que de novo no bom caminho. E com saúde.