A delicada operação de garantir um guarda-redes

A delicada operação de garantir um guarda-redes

TÁTICA DO PROFESSOR - O treinador português explica o quanto custa a um clube de grande dimensão escolher um guarda-redes

1 - Benfica e FC Porto andam em busca de um guarda-redes de nível elevado. A contratação de Perin foi um fracasso pelas razões que se sabe; o FC Porto continua empenhado em contratar Kevin Trapp depois da infelicidade de Casillas, um e outro guardiões com condições para defenderem a baliza de um clube grande, porque um guarda-redes de um clube grande tem de ter habilitações muito particulares, como um enorme poder de concentração, recursos físicos e, acima de tudo, uma boa compreensão de jogo que lhe permita antecipar situações de eventual perigo, atendendo a que durante um jogo só é chamado a intervir duas ou três vezes e normalmente com um grau de dificuldade elevado, porque as equipas adversárias, sujeitas a um maior domínio, fazem de cada momento, de cada possibilidade, e até dos lances de bolsa parada, a hipótese de ouro de ultrapassarem o maior poderio imposto pela equipa grande.

Daí a necessidade de um guarda-redes de equipa grande ter uma boa compreensão do jogo, agilidade e o tal poder de concentração. Um bom guarda-redes pode servir a um clube com ambições mais modestas, mas para ser de um clube grande tem de ser quase excecional.

O tema arrasta-nos para a história não muito antiga de grandes nomes das balizas portuguesas e que se tornaram um pouco na "cara" dos clubes que defenderam. José Henrique ou Manuel Bento no Benfica, Vítor Damas no Sporting, Rui no FC Porto. Ou, se quisermos ir à história mais recente, Zé Beto, Mlynarczyck e Vítor Baía, no FC Porto, Rui Patrício no Sporting, Preud"homme no Benfica - e este nem teve uma boa equipa à sua frente que garantisse muito sossego na baliza, porque esteve no clube em anos muito difíceis.

São, em todo o caso, guarda-redes que entraram para a história, pela sua qualidade, pelos seus recursos físicos, pela compreensão de jogo, ou seja, por tudo o que apontei atrás como características essenciais a um guarda-redes de um clube grande. Lidar com o final da carreira de nomes assim, como me aconteceu a mim nos casos do Bento e do Vítor Baía, nunca é fácil, como não é fácil a sucessão.

Não é fácil para o clube, para a equipa, para os adeptos, para o treinador. O FC Porto encontrou um bom sucessor do Vítor Baía, que foi o Helton, o Sporting encontrou o Rui Patrício depois de anos de muita instabilidade, e o Benfica só com Ederson, hoje no Manchester City, conseguiu garantir qualidade acima da média. Por isso, hoje é uma operação muito delicada a contratação de um guarda-redes com nível para uma equipa grande.

2 - O Liverpool, que durante anos esteve perto de tocar o céu na Champions, só o conseguiu, curiosamente, quando garantiu um grande guarda-redes para as suas balizas, Hallison, que também ajudou o Brasil a conquistar a Copa América. Mas haverá um lado B em toda esta história dos guarda-redes?

Sim, se formos buscar o Barcelona de Guardiola fica difícil lembrarmo-nos do nome do guarda-redes, que era Victor Valdez, só que o poderio da equipa do Barcelona era tamanho que um golo que sofresse, e não sofria muitos, quase passava ao lado da história do jogo. Acredito, em conclusão, que tanto o Benfica como o FC Porto vivem um momento delicado neste particular, o de garantirem um guarda-redes de nível elevado para defenderem as suas balizas.