Premium Talvez os artistas

Não há ouro nas arábias que pague um jogo de Jonas Oliveira com a camisola do Glorioso.

Os jogadores, os jogadores. Com um treinador despromovido de efetivo a temporário e um presidente afundado em manias de grandeza, restam-nos os jogadores. Têm de ser eles a levar este barco até à conquista do campeonato. À cabeça está Jonas, claro. O mestre brasileiro - que joga sempre com a inteligência feliz de um filósofo a dançar capoeira - faz toda a diferença. Marcando ou não marcando, o craque de Bebedouro, São Paulo, é essencial para (aqui vai jargão de locutor) "matarmos a sede de golo". A forma como recua e define o ataque, como tabela ou surpreende com uma viragem de corpo, como imagina o jogo em tempo real - isso vale futebóis mil. Não há ouro nas arábias que pague um jogo de Jonas Oliveira com a camisola do Glorioso. Além do mais, é um líder. Alguém que dá confiança aos colegas. Bem sei que a confiança de uma equipa não vem escarrapachada nas estatísticas, mas sem esse não-sei-quê de calma e amor-próprio, é muito complicado o placar mexer a nosso favor.

A boa notícia da vitória ao Paços na terça-feira foi que, sim, há quem queira seguir o exemplo do mestre. Não me refiro só a Haris Seferovic e João Félix, que marcaram os golos, mas também a Alfa Semedo, Filip Krovinovic e Andrija Zivkovic. Foram momentos aqui e ali, não foi uma história com princípio, meio e fim, bem sei - mas que momentos tão bonitos, não é verdade? Herberto Helder escreve que o futebol "feito com alegria verdadeira, com os pés e as mãos, com o corpo todo, é uma explosão". Quem viu Alfa fazer aquela arrancada elegantíssima e inventar aquele passe para o pontual Seferovic assinar o golo, sabe do que fala o poeta. E depois, quem não sentiu a "explosão" quando Félix acendeu o relvado com um toque de calcanhar para Zivkovic e, logo a seguir, despachou um chutaço para as redes da Capital do Móvel? No Planeta Freitas Lobo, delicio-me com a História do futebol-arte. Num episódio, fala-se de tempo e espaço, de como têm vindo a minguar os dois e de como isso tem mudado o jogo. Este Benfica, está visto, tem um problema de ocupação do espaço sempre que perde a bola. Talvez os artistas possam contornar a questão usando melhor o tempo quando têm a redondinha nos pés. Quando falha a arquitetura, poderá a redenção vir da música improvisada? Escrevo isto antes do jogo com o Vitória de Setúbal. Digam-me, por favor, caros amigos - sim?