Premium Pôr alma na tática

Descalço na Catedral: Se tivesse de sugerir algum acrescento ao 4x4x2 de Bruno Lage seria isso: o ânimo de um sempre-começo.

Anda por aí muito cidadão pasmado com o excedente que Mário Centeno promete no Orçamento de Estado de 2020, mas uma beleza económica mesmo de embasbacar é o golo que Pizzi inventou contra o Braga, na quarta-feira.

Num espaço mínimo, entre dois defesas, o craque do Glorioso recebe a bola com a naturalidade de quem recebe um "olá"; passa-a de um pé para o outro como se cumprisse o gesto quotidiano, distraído, de quem aperta os atacadores antes das escadas rolantes do metro; e, de repente, zás, chuta a redondinha, rasteira e cruzada, nem forte nem fraca, só venenosa, para a baliza, transformando o tal "olá" num belo "olé". Isto tudo num metro quadrado de relva. Talvez seja minimalismo mas não se trata de coisa pouca, caros amigos. É o equivalente futebolístico a esculpir a Vénus de Milo dentro de uma caixa de fósforos. Que maravilha. Uma economia de gestos, uma simplicidade de génio. Além do mais, estávamos a perder e aquela obra de arte virou o jogo. A chuteira de Pizzi encosta na bola e, pelo mundo inteiro, os benfiquistas começam a sentir o coração a levantar-se: vamos ganhar isto, caramba.