Premium O futebol-kaiseki de míster Bruno Lage

O futebol-kaiseki de míster Bruno Lage

DESCALÇO NA CATEDRAL - Por trás deste futebol está míster Lage. O líder contido e discreto do nosso futebol-kaiseki está a mudar muito mais do que táticas.

Depois do fenómeno paranormal que foi aquele jogo com a SAD de Belém, o Benfica tinha de regressar a si próprio. Contra o Dínamo Zagreb, ou ganhávamos ou ganhávamos, não havia outra hipótese. Agora, claro: a pressão de um "ou-ou" desses não é fácil. A de quinta-feira ainda nos prendeu os gestos durante os primeiros quarenta e dois minutos. E aí, de repente, a expressão "minutos psicológicos" ganhou um novo sentido. A partir desse momento - um instantezinho não demonstrável, não científico, não youtubável, em que não houve nenhum golo, nenhuma comoção especial, só onze jogadores lembrando-se em uníssono, para dentro, do tempo que passa e não volta mais - reencontrámos a nossa confiança e o nosso futebol.

Li, há pouco, sobre um tipo de manjares japoneses (uma espécie de ritual) chamado "kaiseki". Trata-se de uma sequência "narrativa" de vários pratos, que utiliza apenas ingredientes que estejam no seu ponto ótimo. Do espírito do "kaiseki" faz parte o cuidado de não dar jantares repetidos a comensais reincidentes e também um certo recolhimento ou apagamento do chef. Lembrei-me logo de míster Lage e da nova filosofia de bola do Benfica.