Premium OPINIÃO - O Ataque Silva, o elefante e um futuro alternativo

OPINIÃO - O Ataque Silva, o elefante e um futuro alternativo

Um texto de opinião de Jacinto Lucas Pires.

Foi tão interessante a jogatana da equipa de todos nós com a Polónia que se tornou problemática. Houve, como se costuma dizer, golos para todos os gostos: um clássico, de ir à linha de fundo e meter na área, interpretado por Luís Miguel Pizzi e André Silva; um moderno, de longo passe afiado e receção cirúrgica em movimento, responsabilidade de Rúben Neves e Rafa Silva; e um genial, de jazz e alma, assinado por Bernardo Silva. Que maravilha literária, além do mais: Silva, Silva, Silva! Também houve erros e ingenuidades, claro - no primeiro golo polaco, por exemplo, Rui Patrício ficou mal na fotografia e, no segundo, a defensiva desconcentrou-se infantilmente com a bola que o bandeirinha não viu sair -, mas, em geral, tivemos bom espírito, belas jogadas e muitas oportunidades. Por um lado, foi bonito ver o Ataque Silva a faturar e ninguém sentiu saudades de coisa nenhuma, ou só do futuro. Por outro, terminado o jogo, havia um elefante na sala. Sim, exato, falo da ausência de Cristiano Ronaldo e da sua reintegração próxima.

A propósito do encontro na Silésia, Bernardo falou de "uma geração nova" e de "uma nova forma de jogar". Já Fernando Santos disse que tinha gostado da exibição, mas que nenhuma equipa podia ser melhor sem Cristiano. E que, em relação a isso, a única questão era descobrir que adaptação iria fazer, já que a equipa está a jogar com dois extremos e que, quando entrar "o avançado que cai à esquerda", o desenho tático terá de mudar. O problema é que, muitas vezes, sim, a Seleção joga melhor sem Cristiano, e que o modo de o míster nacional pensar esta questão parece virado ao contrário - não se deve adaptar uma equipa para Cristiano, mas pensar que Cristiano queremos para esta equipa. A questão, aliás, não é tática, ou técnica, mas de equilíbrio de poderes, ou política.

Vejo a Seleção sem óculos vermelhos, mas, desta vez, confesso que a partida com a Polónia também me pôs a pensar no Benfica. Uma Seleção com Bernardo Silva, Rafa Silva, Pizzi, João Cancelo, Rúben Dias, mais Renato Sanches, Gedson Fernandes, Hélder Costa (e falta ainda, pelo menos, Nélson Semedo) atirou-me para a zona dos futuros alternativos da bola. Como seria o plantel do Glorioso se os mandachuvas se preocupassem menos em vender e comprar e mais em construir um futebol capaz de maravilhar a Europa daqui a quatro ou cinco anos?