Premium "No centro dessa bela jogatana, esteve o nosso miúdo-maravilha, João Félix"

"No centro dessa bela jogatana, esteve o nosso miúdo-maravilha, João Félix"

DESCALÇO NA CATEDRAL - Um texto de opinião de Jacinto Lucas Pires.

Que jogaço. Um divertimento catedrático como não via há um bom tempo. Refiro-me, claro, ao jogo com o Sporting no domingo passado. Que aula de bola deu o Benfica em Alvalade, uma verdadeira aula magna. Desprovidos de bom senso e de sentido do espetáculo, os árbitros ainda tentaram estragar tudo, mas os craques do Glorioso não se deixaram ir abaixo. Fizeram de conta e continuaram a acelerar, a imaginar futebóis em tempo real, e é assim que tem de ser.

No "El Pais", a propósito da Taça del Rey, Jorge Valdano pede um futebol sem videoárbitros, sem publicidade nas camisolas e de chuteiras pretas, à antiga. Tem toda a razão, assino já em baixo. Não só para a Taça - para os campeonatos todos, e para sempre. A ideologia do dinheiro e o positivismo dominante estão a matar o futebol do nosso coração. É preciso fazer alguma coisa. O futebol é o lugar onde, um domingo aqui, uma quarta-feira acolá, podemos ser livres de novo, como em crianças. Dentro de um retângulo riscado no chão, experimentamos o mundo em conjunto. É um instante de noventa minutos em que, libertos das picuinhices cinzentonas do dia a dia, nos oferecemos o luxo de nos espantarmos connosco próprios. Se estamos sempre a parar a bola para ver o que diz a máquina, isso vai-se. Se a máquina vale mais do que a bola, mais vale engordar no sofá a jogar playstation. Ainda por cima, os erros dos árbitros não acabam assim. Pelo contrário, amplificam-se e deixam de ter desculpa.