A grandeza do futebol

Jacinto Lucas Pires

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"Acabámos por ganhar por cinco a um Vitória de Guimarães histórico e podiam ter sido por mais"

Quando começou o jogo de ontem, o meu estado de espírito, caros amigos, era de cautela e caldos de galinha. Sabia que a festa estava pronta. Sabia que os astros pareciam ter-se reunido neste fim de semana português e mundial. Sabia que o Glorioso merece ser campeão, e que mais vale cedo do que tarde, e que "as camisolas berrantes" são "papoilas saltitantes". Sabia isso tudo, pois, mas sentia que era preciso calma, primeiro. São as duas grandes lições que trago destes quarenta e dois anos sobre a Terra, caros amigos: calma e alegria, o importante é ter calma e alegria.

Já lá diz o velho provérbio chinês: não se deve deitar os foguetes antes da festa. "Primeiro, há um jogo de futebol", dizia eu para dentro, para me tentar convencer, "depois, logo se vê". Nesse dia apertadinho, em que tantas jornadas, tantas memórias, tantas emoções se concentravam em noventa minutos, tínhamos de nos pôr a pau com a distração e o excesso de confiança. Nada de blá-blá sobre faixas, taças ou champanhe. Aquele era o momento de nos concentrarmos na redondinha. Entregá-la de pé para pé, dar-lhe velocidades de embasbacar adversários e, por fim, chutá-la para o sempre poético "beijo das redes". Mesmo expressões dessas podem ser perigosas. Na política, diz-se que as campanhas eleitorais são poesia e, depois, governar é prosa. Naquele sábado apertado, cabia-nos fazer o contrário: construir em prosa para, só depois, festejar com poesia.

Eram propósitos ponderados, sensatos, não é verdade, caros amigos? Pois bem. Quando, aos onze minutos, Cervi marcou o primeiro golo, mandei logo a sensatez às urtigas. Íamos golear, íamos festejar, podíamos começar já! Caramba, onde é que eu tinha a cabeça, onde é que eu tinha o coração? Um escritor que distingue prosa e poesia não é digno de ser chamado escritor! E, sim, sim, sim, a equipa estava connosco, que maravilha. Confundindo futebol-arte e eficácia, calma e alegria, em grande estilo. Aquela assistência de Ederson para o golo de Jiménez! Aquele terceiro de Pizzi, entrando sem medos pela área adversária, a merecer uma continência geral! E a obra-prima do chapeuzinho de Jonas! Acabámos por ganhar por cinco a um Vitória de Guimarães histórico e podia ter sido por mais. Mas não são os números que contam. É que não foi só o título, caros amigos. Neste jogo o Benfica provou a grandeza do futebol.