DESCALÇO NA CATEDRAL - Um artigo de opinião de Jacinto Lucas Pires
Há uns dias, o país foi sacudido pela grande polémica da marquise de Cristiano Ronaldo.
A coisa ganhou proporções excessivas, claro - pondo a nu, de um lado, certo desespero pela conquista de audiência, mas também, de outro lado, certa fascinação coletiva pelo prosaísmo da vida galáctica - e, ainda assim, teve a sua graça.
Desde logo, conseguiu o feito de levar a discussão da arquitetura até às primeiras páginas dos tablóides. Mas, se trago para aqui o assunto, não é para me pôr a mandar bitaites sobre teoria arquitetónica, propriedade intelectual ou voyeurismo - é para falar de bola. É que essa controvérsia mediática encerra a metáfora perfeita para o jogo da Seleção. Se queremos pôr os nossos talentos a render o máximo no Campeonato da Europa que está aí a rebentar, temos de pôr Cristiano a jogar fechado na "marquise". Ele tem de ficar lá no cimo do ataque, sem se armar em extremo ou construtor de jogo. Viu-se isso no amigável de sexta-feira com a Espanha, como já se tinha visto em tantos jogos antes. Cristiano é o nosso matador, não deve acreditar que é um outro "vagabundo". Não apenas porque há Bernardo Silva, João Félix, Bruno Fernandes e até Renato Sanches, mas também porque é preciso termos alguém na área, a fazer "que sim" com a cabeça às bolas altas e a acenar "boa viagem" com o pé às bolas baixas.
O jogo a feijões com a Espanha deu para descortinar outras questões importantes. Falei de Renato, e por aí passa uma delas. O craque que foi campeão no Benfica, no Bayern e no Lille está em grande forma, e traz à equipa de todos nós a capacidade, cada vez mais valiosa no futebol científico de hoje, de surpreender, de alterar a rotação do jogo num abrir e fechar de olhos, de desarrumar as defesas e escavar buracos no sistema adversário. Mas - qual será o melhor lugar para ele? Falei também de Bernardo, que não jogou com a Espanha. A ausência do artista benfiquista do City sentiu-se fortemente em Madrid. É que o nosso futebol de filigrana depende de mobilidade, sim, mas também de alguém que arquitete o ataque, que dê ora rasgo ora ordem ao todo do nosso jogo. A Seleção precisa de Cristiano na marquise e Bernardo a arquitetar. (Não serão talvez os termos táticos que ensinam no curso de treinadores, mas são os me ocorrem agora, neste momento de emergência futebolística, quando faltam só uns dias para a Europa entrar em campo.)
Falei de tática, também, não foi? Está aí uma das minhas maiores dúvidas em relação ao que vi sexta-feira... Aquele 4x2x3x1, caro Fernando Santos - aquilo não será amarrar o bicho? Aquela bola que o espanhol Morata disparou contra a trave da nossa baliza ao cair do pano - aquilo não será um aviso para jogarmos sem medinhos?
