Portugal: fact check

Hugo Sousa

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Do discurso à exibição, é preciso ver o que não bate certo, mesmo que tudo tenha acabado bem em Andorra

Acabou tudo bem. Portugal cumpriu a missão de chegar ao último jogo dono do seu próprio destino, que era o mais importante, mas reconhecer isso é fazer apenas uma parte do trabalho jornalístico. A outra passa pelo chamado "fact check", ou verificação de factos, para concluir que Fernando Santos, ontem, antes de tomar as opções na escolha do onze, se esqueceu de ler a conferência de Imprensa que dera na véspera e na qual se inverteu a lógica de um ditado popular: em vez de "olha para o que digo e não para o que faço", o engenheiro convidou-nos, de agora em diante, a dar menos valor ao que venha a dizer e a franzir a sobrancelha até que se perceba ao certo o que vai realmente fazer. Aquela garantia de que ninguém pensava na Suíça por antecipação, de que jogaria a melhor equipa e de que não havia medo nenhum dos amarelos foi, afinal, blá, blá de embalar. Os jornalistas fizeram muito bem em insistir no tema Ronaldo, não desistindo à primeira finta do selecionador, porque, embora isso não tenha mudado nada nas respostas que dele se obteve, ficou registado, para eventual memória futura, que a conversa de véspera é cada vez mais parte estratégica de um jogo. Portanto, para ler com reservas, à procura da verdade algures nas entrelinhas.

Fernando Santos foi humilde no final ao reconhecer que a decisão que tomou era discutível - Ronaldo não lhe deu outro remédio, ao marcar um golo e desenhar parte do outro... - e ainda atirou o relvado artificial para cima da mesa, o que, não sendo propriamente irrelevante, é também argumento de alguma artificialidade, porque esta mesma Seleção passeou classe num tapete tão plastificado como o de ontem quando jogou nas Ilhas Faroé. Lembram-se? Dito isto, vamos ver se nos entendemos: se o campeão da Europa, mesmo sem Ronaldo, não consegue vencer Andorra, algo vai mal...

Importa por isso, noutro "fact check", assinalar que a exibição de Portugal na primeira parte foi de uma pobreza alarmante. E a segunda não foi muito melhor, apesar dos golos. Mas essa talvez seja a parte boa que sobra. É quando está debaixo de desconfianças, irritada com críticas ou críticos e não embalada por elogios sem fim, que esta Seleção costuma dar as respostas mais convincentes. Seja contra quem for, é um Portugal assim que o objetivo de estar na Rússia exige.