Premium Racismo no futebol: sigam o exemplo do Nápoles, abandonem todos o jogo 

Racismo no futebol: sigam o exemplo do Nápoles, abandonem todos o jogo 

Continuo a achar que a Itália está um passo à frente dos demais no combate a algumas injustiças desportivas. Na arbitragem, foi dos primeiros países a implementar o VAR e a aceitá-lo. Há mais de uma década que combate a corrupção e o problema das apostas no futebol, dando a sensação errada de que estes crimes só acontecem em Itália. Agora, Carlo Ancelotti e o seu Nápoles indicam um possível caminho para combater este grande problema que é o racismo no futebol. Os adeptos e os jogadores do Nápoles são constantemente alvo de coros, canções e faixas racistas nos estádios. Principalmente no norte do país. No último jogo em Bérgamo, contra o Atalanta, os jogadores ameaçaram abandonar o relvado em caso de sons a imitar macacos ou outros insultos semelhantes. Em Bérgamo, não foi necessário, mas o clube está convencido de que quando voltar acontecer, os jogadores devem fazê-lo. Ancelotti é o cabecilha desta ideia que foi amadurecida nos últimos anos perante a incapacidade de os órgãos que gerem o futebol resolverem o problema. "Vamos parar de fazer de conta que somos surdos?", é o mote lançado pelo treinador, e que me agrada cada vez mais.

No jogo entre Juventus e Nápoles no dia 29 de setembro, em Turim, ouviu-se várias vezes aquele lamentável som de macaco cada vez que o defesa do Nápoles, Kalidou Koulibaly, tocava na bola. A verdade é que o árbitro nada fez e que, uma vez mais, pareciam todos surdos. A claque da Juventus foi punida com a impossibilidade de assistir ao jogo seguinte. Muito pouco para travar estes gestos. Em França e Inglaterra, dois países onde as misturas étnicas estão mais enraizadas, assistimos esta semana a episódios com bananas e amendoins a serem lançados na direção de jogadores negros. Nem os árbitros nem os restantes atletas em campo fizeram nada, mas este é um problema que diz respeito ao coletivo. Nunca terá impacto se for combatido somente pelo jogador visado, que ao abandonar o campo sozinho, como fizeram no passado Muntari e Boateng, sai ainda mais debilitado. E se afinal forem os Cristianos Ronaldos, os Chiellinis e os Buffons a abandonar o relvado? São estes jogadores que devem reagir, não basta os vídeos a dizer "não ao racismo" gravados pela UEFA. A mesma coisa para os treinadores: não façam de conta que são surdos e sigam o exemplo de Ancelotti. Por último, que a FIFA e a UEFA protejam as equipas que tomem esta atitude radical, mas necessária. O espetáculo e o racismo não podem conviver no mesmo palco.