Futebolistas privilegiados em tempo de vírus

Futebolistas privilegiados em tempo de vírus

PREMIUM >> Não condeno a atitude destes e de outros que preferem passar este momento difícil ao lado das suas famílias, e de preferência num país mais quente. No entanto, vejo o lado dos italianos.

Higuain, Pjanic e Khedira violaram a quarentena da Juventus e abandonaram Turim depois de Cristiano Ronaldo ter sido o primeiro a trocar a cidade do Piemonte pela sua terra natal, no dia 8 de março, quando, no entanto, ainda não tinha sido decretada a quarentena obrigatória para 60 milhões de pessoas. A saída de Ronaldo abriu a exceção à regra e a Juventus ficou sem argumentos para bloquear a fuga do último trio, que, provavelmente, não será a última. Neymar e Thiago Silva também abandonaram Paris e regressaram ao Brasil, depois de Macron ter decretado o isolamento da França.

Não condeno a atitude destes e de outros que preferem passar este momento difícil ao lado das suas famílias, e de preferência num país mais quente. No entanto, vejo o lado dos italianos. Há poucas semanas, um amigo português que mora em Shangai explicava-me os motivos que o levaram a querer permanecer no país durante o pico da epidemia, em fevereiro, e, entre eles, estava exatamente o facto de não querer passar a mensagem aos colegas de trabalho e aos chefes chineses de que abandonou o barco no momento de maior dificuldade.

Essa é a imagem que muitos jogadores de futebol passam agora aos países onde jogam e às empresas que lhes pagam maravilhosamente bem. Para piorar o cenário, o último trio de fugitivos (Higuain, Pjanic e Khedira) interrompeu a quarentena obrigatória a que todos os jogadores da Juventus estavam sujeitos desde que Rugani contraiu o vírus (e agora Matuidi também deu positivo).

A justificação é que os três teriam feito duas vezes os testes e levaram com eles o certificado que garantia o resultado negativo, mas ao italiano comum não é dada essa possibilidade, porque o teste só é realizado na presença de sintomas e, mesmo para quem teve contacto direto com infetados, não é realizado o teste na ausência de sintomas. Têm mesmo de cumprir a quarentena de 14 dias até ao fim. Porque é que até neste caso os jogadores de futebol são seres privilegiados?