Premium OPINIÃO: A transfiguração de Herrera e de um velho Porto implacável com refilões

OPINIÃO: A transfiguração de Herrera e de um velho Porto implacável com refilões

No quinto ano de Herrera, o FC Porto recupera o ceptro de campeão, e ele contribui decisivamente com um golo na Luz.

Dizem que não há gratidão no futebol, só contratos, negociações, janelas de oportunidade. Outros dizem que há, mas em doses homeopáticas, como declarações de amor à camisola que a realidade trata de acomodar. A gratidão fica do lado dos adeptos, que não esquecem as alegrias prestadas por treinadores e jogadores, e acabam por entender os ditames do profissionalismo.

Vem isto a propósito de se ter confirmado esta semana o que os jornais há muito ventilavam: Herrera pediu seis milhões de euros para renovar contrato com o clube onde se fez um jogador de top. O principal mérito é seu, claro, mas não devia esquecer que, quando chegou, era pouco mais do que um mexicano jeitoso a quem se augurava uma explosão rápida, fulgurante. Só que, a cada ano que passava, o que se via em vez do fulgor era o jogador distraído, com paragens do músculo mental, alternando o muito bom com o inexplicavelmente mau. Alguns adeptos passaram a chamar-lhe o "morre-ao-sol". O burgo é viperino nas alcunhas.

Apesar disso, não tenho memória dum jogador tão protegido e tão acarinhado nos últimos anos, não me lembro de tanta paciência, tanta espera pelo amadurecer dum talento - tivesse havido a mesma paciência com outros jogadores da formação e alguns, por certo, teriam crescido e aparecido.

Herrera fica ligado ao período mais longo sem títulos da história recente do Porto, por certo desempenhando no balneário um papel de figura agregadora, um imprescindível para tantos treinadores, embora lembrasse o bacano do baile que tenta fazer uns passos engraçados e escorrega no soalho. Mas a verdade é que se tornou uma referência, até pela própria antiguidade. E uma referência como Herrera pode ajudar a perceber melhor o porquê de o Benfica ter alcançado o tetra.

Por fim, vários treinadores depois, Sérgio Conceição incute-lhe rigor, constância, responsabilidade, e faz dele capitão. No quinto ano de Herrera, o Porto recupera o ceptro de campeão, e ele contribui decisivamente com um grande golo marcado na Luz, típico dum jogador irreconhecível, confiante.

Não espantou o Mundial de gabarito que fez na Rússia.

Voltou literalmente transfigurado esta época, um Herrera mais fotogénico, com uma proposta de renovação por valores que sabia impossíveis. Agora prepara-se para sair sem mais-valias para o clube que lhe inseminou arreganho e cultura táctica. No domingo passado, os locutores da ESPN Brasil passaram o jogo da Luz a perguntar por ele. "Cadê Herrera? O cara esconde-se do jogo." Mas Herrera não se escondeu, limitou-se a pensar em duas coisas ao mesmo tempo: no jogo e no novo clube, em Janeiro.

Quando, entre gráficos solenes, a SAD explicou o caso em termos contabilísticos, senti falta do clube que se eriçava contra os refilões, não raro dum modo injusto, unilateralmente patronal. E, ao pensar no lirismo da gratidão no futebol, pensei também na sagacidade e na firmeza negocial, algo em que o velho Porto não dava abébias. Dificilmente esse Porto deixaria a situação de Herrera chegar onde chegou.