O promissor arranque do FC Porto de Conceição

O promissor arranque do FC Porto de Conceição
Carlos Tê

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Para já, corre tudo às mil maravilhas. Aguardemos o embate com adversários mais fortes. Sobretudo, aguardemos a reacção à derrota*

Promissor, é o mínimo que se pode dizer do começo da época do FCP. Sérgio Conceição tem levado o barco com prudência e sagacidade. À falta de reforços, resgatou os emprestados, reabilitou os ostracizados, tomou o pulso ao plantel, arrumou a casa. Aos primeiros sinais, os adeptos responderam em festa e com casas cheias sucessivas. No fim do jogo de apresentação, Sérgio fez uma declaração que passou despercebida mas que achei significativa: agradecia o ambiente caloroso mas não gostava muito de festas. Disse-o com franqueza e sem receio de parecer um desmancha-prazeres. Sérgio sabe do que fala. Para um velho guerreiro como ele, o futebol não é uma festa, é um sacrifício. Para o público, é saudável essa componente de folclore e paixão clubística que o marketing aproveita para criar eventos e escoar a panóplia de merchandising. Mas convém definir a linha entre festa e sacrifício. Há uns anos atrás, no pico do sucesso, quando a SAD se entronizou como gestora de glórias do velho Porto rabugento e insaciável, e constituiu um corpo superprofissional, virado para o futuro, cheio de ideias inovadoras, uma delas foi o desfile de apresentação dos equipamentos no início de época. Soube disso quando vi Maicon numa resenha televisiva a menear-se ao som catita dum DJ. Sei que não se deve ser bota-de-elástico nem contestar a força do vento, mas tive uma premonição ao ver aqueles jogadores a desfilar numa passerelle - amolece-os para os confrontos de inverno. Duvido mesmo que haja outro clube a fazer isso, e imagino Pedroto no camarote celestial, forrado a azul e branco, a torcer-se de riso e desaprovação. Por isso não foi uma surpresa completa quando Maicon abandonou o campo durante um jogo virando as costas à equipa com um dói-dói no joelho. Mesmo assim, por muita reserva que a imagem dele a desfilar como modelo me infundisse, confesso que não imaginei a "cenaça" dele a sair do campo. Mas aconteceu. Agora, dizem que Maicon meteu um processo ao clube por perdas e danos. É o que dá avaliar mal os requisitos para chegar a capitão de equipa. Agora, a reconstrução da identidade do Porto passa por reaprender a sofrer mais do que os outros e meter o pé sem medo de perder o próximo desfile, voltar a ser uma equipa intratável na disputa de cada lance. Ou seja, as premissas que fizeram do Porto um grande europeu. Sérgio tenta relembrá-las, mas tem pouco tempo para convocar o velho ADN reminiscente. Para já, corre tudo às mil maravilhas. Aguardemos o embate com adversários mais fortes. Sobretudo, aguardemos a reacção à derrota - a derrota é inevitável como a chuva. Para já, em Braga, por exemplo, viu-se uma equipa munida de vários trunfos tácticos e com uma inteligência colectiva capaz de congelar o jogo e acelerá-lo, perceber que, se não for possível matá-lo de vez, ao menos pode-se fechá-lo. É um bom auspício. Vai ser curioso assistir ao braço-de-ferro de Sérgio com Brahimi, Corona, Herrera, Otávio. Será que aproveitam para dar o salto? Ou vão ficar sempre em festa?

*O autor optou por escrever na ortografia antiga