A lição de Inês Henriques que devia chegar a Cristiano Ronaldo

Nos festejos, [CR7] não resistiu à pulsão narcísica de tirar a camisola e oferecer às câmaras a pose de Action-Man

Faz hoje uma semana que recebemos a notícia duma medalha de ouro nos campeonatos do mundo de atletismo (há dez anos, desde Nelson Évora, que não víamos uma), na marcha, aquela modalidade com qualquer coisa de antinatural pelo modo desarticulado com que os atletas se locomovem. Foi uma prova mista, que abriu a marcha às mulheres na distância de cinquenta quilómetros - até aí só permitida a homens - e exigiu um tempo mínimo comum para participação. Sete mulheres conseguiram-no e marcharam, mas só quatro chegaram ao fim. Inês Henriques cortou a meta à frente dessas quatro e, além da medalha, arrebatou o primeiro recorde mundial. No fim, mostrou a felicidade de quem comete um feito histórico. Mas a sua felicidade primava pela contenção (que não deve ser confundida com modéstia ou humildade) e passava aos jornalistas um discurso grato, onde destacava o seu treinador, um homem que, aos 69 anos, aparecia associado a um grande momento, depois de a ter ajudado a educar o corpo e o espírito para a resistência e para o estoicismo. Por isso, aos 37 anos de idade, Inês Henriques encarava a medalha como uma recompensa do esforço de 25 anos de trabalho, e relativizava o seu feito nas entrevistas: quatro horas a marchar não era nada que se comparasse ao que a mãe fazia todos os dias ao lado do pai, trabalhando mano a mano na venda de carvão e lenha, em Rio Maior.

Horas depois, em Camp Nou, durante o Barcelona-Real Madrid para a supertaça de Espanha, o mais famoso desportista português de todos os tempos marcava um dos muitos fabulosos golos que ornam a sua longa e emérita carreira. Nos festejos, não resistiu à pulsão narcísica de tirar a camisola e oferecer às câmaras a pose de Action-Man. Viu o cartão amarelo, como reza a lei. Dois minutos depois, caiu na área e reclamou um penálti que o arbitro não validou. Em vez disso, mostrou-lhe o segundo amarelo e expulsou-o. Por instantes, o astro perdeu a cabeça e ensaiou um infesto ao juiz de campo, que lhe valeu cinco jogos de suspensão. Ronaldo foi vítima da esparrela mais idiota do futebol: queimar um amarelo a festejar um golo seguido do segundo por pedir um penálti. Num jogador inexperiente, seria só uma burrice. Numa estrela, o estatuto agrava a burrice, até porque, logo a seguir, o sub-21 Asensio marcou também um golo fantástico sem mostrar os abdominais. Ronaldo sente-se permanentemente julgado, injustiçado, como se não consiga ultrapassar o facto de ter ascendido à custa de muito trabalho e abnegação. Para ele, cada golo é uma bofetada em quem o assobia e quem o inveja. Messi, pelo contrário, parece ter nascido no caldeirão dos predestinados. A sua movimentação encarna a realeza genial que dispensa o exibicionismo. Vai ser curioso assistir ao fim da carreira de Ronaldo. A nossa veia provinciana não o tem ajudado. Não é fácil ter o nome num aeroporto. Torço para que a sua saída de cena ainda demore e não lhe ensombre a grandeza. Talvez uma passagem de olhos pelas palavras de Inês Henriques forneça algumas pistas.