Para lá dos golos

Carlos Machado

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Golos de todos os feitios e para todos os gostos, arranque, tiro, drible em movimento, inteligência em jogo, bolas paradas. Eusébio era muito mais do que isso

M elhor jogador português do século XX. Achei graça à definição ouvida na rádio pela manhã e apreciei o jeito entendido de fazer justiça sem ferir suscetibilidades. É inexorável haver uma geração para a qual Eusébio será o melhor de sempre a título definitivo; da mesma forma, quem não o viu jogar tenderá a substituí-lo nos afetos por Cristiano Ronaldo. A situação é normalíssima, compará-los não faz sentido. Eusébio foi um monstro do futebol, um jogador à parte, um integrante do reduzido lote dos imortais. Cristiano está no mesmo caminho, qualquer um deles seria sempre um craque qualquer que fosse a geração a que pertencesse. O saudado crescimento de um não apaga o outro da história. Eusébio estará sempre na galeria dos melhores da história do futebol, a par de Di Stéfano, que ele próprio considerava o melhor de todos, e de muitos outros cujos desempenhos os imortalizaram.

Vi jogar Eusébio. Anos mais tarde devorei cassetes de vídeo sobre o Mundial'66 e revi tudo quando as imagens foram passadas para CD. Os golos, o arranque, o tiro, o drible em movimento, a inteligência em jogo, a nobreza, a lealdade, a pureza, o prazer de jogar. Tinha tudo, mas prefiro contar uma história.

Já lá vão uns anos largos. Num dia atendi um telefonema do João Malheiro, amigo desde o tempo em que era correspondente de O JOGO em Vila do Conde. Disse-me que estava com uma pessoa que me queria pedir um favor. Para meu espanto, passou o telefone a Eusébio, que se apresentou com toda a simplicidade do mundo. O pedido não chegava bem a sê-lo: o King gostava que o jornal desse cobertura noticiosa a uma digressão do então Clube Portugal, uma seleção de velhas glórias do futebol português que se iria deslocar a um torneio internacional.

Ficamos à conversa um bom bocado, falámos do enormíssimo jogador que ele fora e das saudades que deixou. A dada altura disse-lhe ser mais um dos muitos admiradores dele, mas acrescentei que as coisas poderiam ter sido diferentes. Quis saber porquê. Nesse jogo memorável de 1966 ante a Coreia do Norte, com 0-3 aos 25', Eusébio fez quatro golos seguidos. Quando marcou o penálti que deu o 4-3, o meu pai sentiu-se mal. Um susto, uma comoção ligeira que não o impediu de ver José Augusto assinar o 5-3. Quando acabei a minha história, ouvi um suspiro do outro lado: "Eh pá!, mas correu tudo bem, não correu? Agora fiquei preocupado." A seguir quis saber tudo sobre o meu pai, se tinha sido mesmo só susto, o que era feito dele, o que fazia na vida, se continuava de boa saúde.

Este era Eusébio, o cidadão.