Os convites

Investigar um ministro é tranquilizante, mas o sentimento de imunidade dos políticos não, por inabilidade que seja

Determinou o Ministério Público arquivar o inquérito a Mário Centeno, ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo, por inexistência de provas sobre um eventual benefício concedido ao filho de Luís Filipe Vieira (num caso de isenção de IMI) a troco de dois convites de camarote para assistir ao Benfica-FC Porto da época passada. A escandaleira dos últimos dias a envolver a comandita do juiz Rangel já ilibara o ministro da suspeita de favores, mas não ficava mal a esta gente que calcorreia os corredores do poder ter um pouco de decoro na forma de fazer coisas simples, como arranjar bilhetes para ir ao futebol, abandonar o sentimento de imunidade.

O problema de Centeno não foi pedir convites, foi tê-lo feito depois de publicado o código de conduta criado na sequência do "Galpgate", o processo das viagens oferecidas a secretários de Estado para assistir a jogos do Europeu. Foram ver a bola sem pagar, soube-se, apelou-se à máxima da mulher de César, aquela a quem não basta ser séria mas tem de parecê-lo, e lá tiveram de demitir-se. Em linguagem do futebol, atiraram-se para o chão. Tratou-se de uma questão política. Houve ou não dolo ao Estado? Eram ou não competentes? A política dos partidos não quer saber se corta boas cabeças pensantes, basta-lhe cortá-las.

Mário Centeno correu riscos idênticos por nada. Neste tempo de alguns assessores e muitos aspones (assessores de porra nenhuma) pedir convites até parece uma coisa atolambada para quem não precisaria de grande golpe de rins para se fazer convidado. Descuidam-se, agem como se fossem uma classe à parte e de quem toda a gente gosta. E depois tratam de passar a ideia de que os males do mundo aconteceram quando o futebol tentou apanhar algumas boleias da política.

Investigar um ministro, sim, deixa-me medianamente tranquilo.