Tinto de marca

Ganhar jogando mal é boa notícia de vez em quando. É como beber carrascão ou champanhe: pode-se dispensar ambos

A sofrida vitória do FC Porto no confronto com o Belenenses demonstrou que o campeão nacional mantém intactos os predicados que na época passada lhe permitiram atravessar-se no caminho do Benfica e roubar-lhe o penta. A equipa tem noção dos momentos, sabe quando está bem e quando está mal, mas nunca desiste e tenta ajustar-se. Umas vezes consegue, outras haverá em sentido contrário.

Ontem foi um dia mau para os portistas, o calor não vale como desculpa e a do relvado tem valor reduzido. Aconteceu, isso sim, o FC Porto ter dois golos à maior para guardar e não ser capaz de o fazer. Em vez disso, foi-se pondo a jeito até à reviravolta. Depois, assistiu-se ao oposto: quando perdeu a vantagem, assaltou as redes adversárias numa avalancha furiosa, por desordenada que fosse, e acabou por vencer. Uma reação a merecer a curiosa apreciação de Sérgio Conceição na flash interview. "Há dias com futebol champanhe e outros em que é mais tinto da tasca".

Os campeões das ligas competitivas são aqueles que mais vezes conseguem passar incólumes perante a chuva de erros dos dias maus. Ganhar jogando mal também pode ser questão meritória, porque uma coisa é aparecer um golito caído do céu para escrever uma história retorcida, outra é ter disponibilidade física e mental para apelar aos recursos e dar a volta. Nesses dias bebe-se tinto da tasca, mas o equilíbrio é outro, situado entre o carrascão dos dias de sufoco e o champanhe e caviar das goleadas. Podem dispensar-se ambos. Quem mais vezes durante a época beber sabiamente um tinto de qualidade está mais perto de festejar no fim.