Os rapazes estão borrados

Para desespero de Fernando Santos, a Seleção não joga como treina. É urgente entrar na cabeça dos jogadores

As preocupantes exibições de Portugal no Mundial levaram Fernando Santos a recuperar uma prática do Euro"2016: conversas com os jornalistas portugueses um dia depois dos jogos. A forma como analisa as questões e responde às perguntas afasta qualquer carga negativa que pudesse ser atribuída a este tipo de encontros por convite. Não há catequese, mas sim vontade de explicar processos e procedimentos sem ter de responder a questões laterais, evitando o habitual folclore das conferências de Imprensa em que toda a gente a toda a hora tem de falar sobre Cristiano Ronaldo. Foi numa dessas conversas pós-desilusão que há dois anos anunciou ter avisado a família de que só iria voltar a Portugal no dia 11 de julho, disputando-se a final a 10. Corria o dia 19 de junho e na véspera Portugal empatara com a Áustria (0-0) depois de dividir os pontos com a Islândia (1-1) no primeiro jogo.

A situação na tabela classificativa não é problemática, como não o era naquela altura, mas em ambos os casos a parte complicada eram as exibições, a falta de qualidade do futebol. Desta vez, Santos não falou para dar manchetes, mas garantiu a presença de Portugal nos oitavos de final. E tentou explicar o que continua inexplicável depois do jogo com Marrocos: a equipa não joga como treina. Trabalha de forma alegre e joga sob tensão. Esse é, sem dúvida, um desafio de grande dimensão: convencer os rapazes - e por rapazes entendam-se os estreantes - da necessidade de se libertarem de amarras psicológicas. Fazer com que, em linguagem popular, deixem de se borrar todos quando entram em campo. Bernardo, Gonçalo Guedes, Bruno Fernandes e Gelson são craques. Se jogassem apenas o que mostraram até agora nem sequer lá tinham ido.