Ala-Arriba

Carlos Machado

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À expressão poveira Ala-Arriba é normalmente atribuído o significado de "força para cima", o que por si só dispensa mais explicações. Como tem estado à vista de todos, o termo aplicar-se-ia igualmente com a-propósito ao futebol de André André, todo ele virado para a frente, para crescer e ir mais para cima. Mas o genuíno Ala-Arriba é mais profundo, significa desencalhar ou puxar o barco para terra firme, pondo-o a salvo das marés.

A família André tem o mar no sangue, entrega-se à luta dentro de um estádio como o faria na faina marítima, sempre a dar tudo até ao limite das forças. São o orgulho daquelas gentes.

António André foi um jogador exemplar. Chegou ao FC Porto em 1984/85 e não entrou logo na equipa, Nas primeiras sete jornadas foi convocado duas vezes. À 11ª, numa tarde de temporal, em Penafiel, foi chamado a jogo aos 35", porque o relvado estava mau e era preciso alguém que puxasse para cima. Artur Jorge chamou-o e só largaria o lugar dez anos depois, quando confessou que estava na hora de parar, pois já se sentia um motor a gasóleo.

Como o pai, André André também chegou ao FC Porto com 26 anos, sabendo já praticamente tudo sobre o lugar, acrescentando ao futebol da equipa visão de jogo, inteligência, boas decisões e qualidade de passe. Às características enunciadas, reveladas no Varzim e melhoradas no V. Guimarães, que levaram o FC Porto a interessar-se por ele, os portistas em geral descobriram que é também o homem do Ala-Arriba, aquele que vai estar sempre pronto para fazer força para cima, mesmo que amanhã Lopetegui, face às ofertas do plantel, mude de ideias e lhe secundarize a importância. Se acontecer, quando precisar tem a certeza de poder contar com ele.

No final do jogo de sonho protagonizado com o Benfica - melhor em campo e autor do golo da vitória - limitou-se a dizer que o que quer é aproveitar cada minuto que lhe dão. No clássico aproveitou-os todos. Foi ele quem desequilibrou. André André fez a diferença, foi aquilo que o Benfica não teve.