No Japão, a Educação Física faz parte do currículo dos alunos cinco dias por semana

No Japão, a Educação Física faz parte do currículo dos alunos cinco dias por semana

Uma palavra para o muito propagandeado e importante papel do Desporto Escolar. Um termo por muitos proferido, mas sem conhecerem a sua missão específica.

Proferida várias vezes na última semana pelo duplo medalhado olímpico Fernando Pimenta, esta frase trouxe novamente à tona uma realidade que está efetivamente na génese geradora de atletas em qualquer sistema desportivo e em qualquer parte do mundo: as aulas de Educação Física.

Se é certo que esta disciplina, a única no currículo educativo que trata as questões da corporalidade, até faz parte do currículo educativo desde o Pré-Escolar ao Ensino Secundário em Portugal, também é real afirmar que a sua prática regular e sistemática não é, infelizmente, operacionalizada conforme está prevista na legislação. Este é um facto que se torna ainda mais grave ao nível do 1.º Ciclo do Ensino Básico, um momento estruturante e decisivo da evolução motora, onde são desenvolvidas as bases motoras que qualquer criança necessita, quer seja para a vida quotidiana, quer para a variante desportiva. Este facto tem vindo a ser frequentemente sublinhado e denunciado quer pelas associações profissionais e sociedade científica da classe (CNAPEF e SPEF), quer por diversos especialistas (Carlos Neto), ou até mesmo por recentes declarações de presidentes de federações desportivas (Jorge Vieira), estas últimas - juntamente com as associações regionais e principalmente os clubes - constituem o segundo patamar do desenvolvimento de todo o sistema desportivo. Então o que falta?

Ainda o ano passado e já em plena pandemia, a OMS - Organização Mundial de Saúde - enumerou que um terço da população adulta e dois terços da população jovem na Europa apresentam indicadores de atividade física insuficiente, causando, em todo o mundo, 6% a 10% dos casos de doença coronária, diabetes e cancro do cólon e da mama, com um consequente agravamento grave, sob o ponto de vista financeiro e não só, dos sistemas de saúde, assim como é responsável por 9% de mortes prematuras. Face a esta "outra pandemia", a OMS propôs um conjunto de recomendações, onde entre outras medidas, preconiza tempo mínimo de 60 minutos de atividade física de intensidade moderada a vigorosa todos os dias, ou seja, em contexto escolar será o mesmo que dizer que seriam 5 vezes por semana para os jovens entre os 5 e 17 anos (WHO - Guidelines on physical activity and sedentary behavior: at a glance).

Neste sentido, reforça-se o facto que o único local onde todos os jovens portugueses de qualquer zona do País teriam igualdade de oportunidade dessa mesma prática seria, como pensam e atuam os japoneses (obrigado por lembrares este facto a todos, Fernando Pimenta), exatamente nas aulas de Educação Física. No entanto, neste momento e em Portugal, o máximo que um aluno pode beneficiar dessas aulas em qualquer nível de ensino, são apenas de 3 tempos semanais de 50 minutos, muitas vezes dados de forma acumulada, o que fica muito aquém dos mínimos recomendados pela OMS.

Reforço ainda que esta necessidade generalizada de promoção da atividade física e redução dos comportamentos sedentários, principalmente ao nível dos mais jovens, também está prevista na Estratégia Europeia para a Atividade Física 2016-2025, onde se procura que sejam assegurados e disponibilizados locais de prática de atividade física atrativos, seguros e acessíveis, de forma garantir a equidade ao nível de oportunidades de prática sem qualquer discriminação por género, idade, rendimento, educação, etnia ou incapacidade.

Ou seja, recomendações gerais internacionais e europeias, referenciais cientificamente validados, normativos legais, linhas orientadoras, ..., não faltam para que esta base principal da pirâmide desportiva possa ser o mais alargada possível e assim possa originar uma população mais saudável e mais fisicamente ativa, podendo ainda, desta forma, estar na origem de um maior leque de potenciais atletas, afirmando-se como um indispensável caminho para um futuro mais promissor de resultados olímpicos a médio e a longo prazo. Estamos certos que uma aposta forte, séria e coordenada neste momento poderia trazer já resultados muito diferenciados em termos de número de participantes e mesmo medalhas a partir dos Jogos Olímpicos de... 2032 em Brisbane, ao nível de países com uma população e índice financeiro de Portugal, como são, por exemplo, a Hungria ou a República Checa. Sim porque esta visão e ambição para se chegar a mais medalhas olímpicas está naturalmente limitada pelo facto de serem precisos globalmente e em função da modalidade, cerca de 15, 20, até 25 anos de trabalho regular e sistemático para se ter condições de lá chegar!

Uma palavra final para o muito propagandeado e importante papel do Desporto Escolar. Um termo por muitos proferido, mas sem conhecerem a sua missão específica. Conforme legislado, o Desporto Escolar é uma atividade educativa de complemento curricular, que, naturalmente, sem o cumprimento do currículo de Educação Física, fica sem efeito e nem sentido. Mas mais do que formar atletas, o Desporto Escolar define-se como o conjunto das práticas lúdico-desportivas e de formação, com objeto desportivo desenvolvidas como complemento curricular e ocupação dos tempos livres, num regime de liberdade de participação e de escolha, integradas no plano de atividade da escola e coordenadas no âmbito do sistema educativo, "desenvolvendo as suas atividades nas escolas dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário (Decreto-Lei n. º95/1991).

Como mostram as histórias e os percursos dos nossos atletas olímpicos, se é certo que alguns atletas começaram a ser apontados na vertente desportiva através do Desporto Escolar, isso aconteceu primordialmente porque um conjunto de Professores e Profissionais de Educação Física e Desporto identificaram, principalmente nas suas aulas de Educação Física, as bases de competências necessárias que poderiam ser desenvolvidas para possivelmente poderem chegar a um nível superior.

Resumida e paradoxalmente, de 4 em 4 anos voltamos a falar de Educação Física, de Desporto Escolar e de Atividade Física como fatores nucleares e de base para aparecerem mais atletas, para que, de uma maior quantidade, possam surgir ainda mais potenciais atletas. No entanto, após o normal impacto do mediatismo momentâneo, tudo se desvanece e a discussão prometida de um sistema desportivo integrado e coordenado desde a escola, aos clubes e às federações desportivas, fica adiada, assim como as consequentes medidas que poderiam colocar um ponto final à "outra pandemia": a pandemia do sedentarismo, da falta de hábitos saudáveis, da falta de uma cultura físico-desportiva e, também, a das medalhas ou da falta delas!