Eu, feminista, quero medidas em vez de bandeiras a meia-haste

Eu, feminista, quero medidas em vez de bandeiras a meia-haste
António Barroso

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Não sou muito de me render a métricas e 11 mulheres abatidas e ceifadas na vida e na dignidade é, lamentavelmente, um número que não me diz muito mais do que "são apenas mais 11". São "apenas" 11 para acrescentar aos milhões em todo o mundo que são desrespeitadas pelo género, indignamente discriminadas no ser e no fazer, violadas, violentadas, amarradas, assassinadas, agredidas na honra, na alma e no corpo.

Mas não estou aqui para dizer o que todos sabem, mesmo os brutamontes mentais que não querem saber. Estou aqui para dizer que este é o momento em que é necessário fazer-se muito mais do que campanhas bonitas de marketing político/emocional, muito mais do que bandeiras a meia haste ou promessas de feriado para recordar o que não é, infelizmente, preciso recordar. Esta vil realidade esbofeteia-nos diariamente graças ao noticiário comum.

Porque acredito que no atual Governo e na representatividade parlamentar estão pessoas com capacidade e audácia para o fazer, está na hora de avançar com medidas concretas para proteger a existência e a dignidade da Mulher, combatendo de forma séria e eficaz a violência de que é vítima física e psicologicamente. Urge exterminar esta mentalidade mesquinha e retrógrada de uma filosofia de vida imposta por ideais político/religiosos durante séculos.

Além da necessidade de punir e criminalizar a violência de género com mais assertividade, no seio das famílias, no trabalho, na discoteca, seja onde for, é fundamental ter uma política educativa - onde tudo começa - rígida e assertiva nos parâmetros relacionados com as intolerâncias, nomeadamente as que entroncam na igualdade de género.

Há que reestruturar ou rever, sem receio sociopolítico, os currículos escolares e valorizar a educação cívica. A questão de género é basilar, não é uma tanga de discussão de café, como pretendem os arautos das mentalidades mais conservadoras, com as suas ardilosas aparências de sucesso e imagens truncadas de felicidade familiar.

Sem medo, é preciso dizer a algumas alminhas que, para as mulheres, o conceito de "casar bem" é putedo, é prostituição cívica, é nojo moral, é uma vergonha social.

Nestas matérias formativas e educativas, é fundamental a exclusão de formadores que não defendem as tolerâncias civis ou que estejam ao serviço de práticas e filosofias político/religiosas que não protegem o papel igual da mulher e do homem na sociedade. O princípio que defendo é sempre o de intolerância aos intolerantes.

É fundamental fiscalizar e auditar o serviço público e privado, é necessário verificar continuadamente se as práticas laborais estão adequadas aos modelos de igualdade - (oportunidades, salários, carreiras e proteção específica a fatores naturais, por exemplo), sobretudo no setor privado, onde os vícios machistas são muito menos escrutinados. E, sem medo, punir, prender e retirar benefícios fiscais, seja lá o que for preciso fazer. Lá está, a necessidade de um novo e mais punitivo quadro legal para as intolerâncias.

Sim, infelizmente, é necessário um quadro legislativo com o foco na defesa de uma vítima que não são apenas estas 11 mulheres mortas desde o início do ano. É muita gente a sofrer. Muito mais do que sabemos.

Medidas concretas, coragem para mudar e, sobretudo, não ter medo dos impactos junto das mentalidades mais conservadoras. A lei tem mesmo que castigar e punir, com sérios e rigorosos princípios de proporcionalidade, os prevaricadores "em nome do amor ou em nome da tradição".

Obrigar os cidadãos a respeitarem a condição de Mulher, obrigar as instituições ao mesmo, sejam elas públicas ou privadas.
Legislar nesse sentido é urgente. Eu não sei fazê-lo, mas sou capaz de votar em quem o fizer.

PS: Duas notas positivas com especial realce no dia de hoje e porque isto é um jornal desportivo: os parabéns às seleções nacionais femininas e ao investimento que a Federação Portuguesa de Futebol tem feito na categoria. Parabéns, também, às mulheres que singraram no futebol profissional, com quem tive o privilégio de trabalhar, quer na Liga, quer nas sociedades desportivas. Dois casos que a restante sociedade deveria tomar por exemplo.