Socorro! Vem aí o futebol sem fora-de-jogo, penáltis, cartões e também sem futebol"

Acabar com o fora-de-jogo seria como abdicar da civilização e regressar ao Paleolítico só para animar as hostes

Marco van Basten, secretário técnico da FIFA, apresentou um cocktail explosivo de mudanças no futebol: fim do fora-de-jogo, do penálti, dos cartões amarelos, expulsões temporárias, introdução do "shoot-out", mais substituições, etc. Sim, ele avança sobre as regras como, no seu tempo, avançava na direcção da baliza; mas já não concretiza como concretizava, talvez por lhe faltar a bola.

A falta da bola atrapalha muito estes ex-jogadores famosos; e custa perceber como tantos acabam nos mais altos cargos dirigentes. Só pode ser pelo que foram, pois o que são não os recomenda (lembrem-se também de Platini). Afinal, as duas funções exigem dois tipos de inteligência muito diferentes: uma, a física, outra, a mental. Ouvimos Van Basten e pensamos que uma coisa é usar a cabeça para marcar golos e outra para pensar em novas regras. Mas um nome sonante é tudo. Se nos tivessem apresentado, para aquele cargo, um craque da gestão, com provas dadas no uso dos neurónios, é certo que perguntaríamos, desconfiados: quem é este?

O resultado disso é esta notícia assustadora. O fim do fora-de-jogo, por exemplo, a asneira mais notável do pacote, só poderia ocorrer a quem está mesmo fora do jogo. A solução é, pois, mandá-los para a primária, aprender o "aeiou": nos primórdios do futebol, os jogadores não tinham posições definidas e o jogo era caótico. Os golos multiplicavam-se; mas faltava emoção e pairava um vazio que seria preenchido em 1896 (pois, ao tempo que foi...) com a primeira lei do fora-de-jogo (três jogadores entre o avançado e a linha de fundo), o que logo gerou uma reacção estratégica (a definição das três linhas: defesa, meio-campo, ataque) e racionou os golos. Quando, em 1925, a lei passou de três para dois defesas, como ainda é hoje, logo apareceu o "WM", sistema criado por Herbert Chapman, treinador do Arsenal, que fixava posições e tarefas concretas. Tinha nascido a máquina do conjunto e também uma aura de organização e razão interna, de inteligência, que duraria até hoje; e agora vem a infinita estupidez humana pôr em causa essa laboriosa construção do tempo. Vendo bem, seria como abdicar da civilização e regressar ao Paleolítico só para animar as hostes.

Dizem eles que, assim, havia mais golos e é isso que os adeptos querem. Não é verdade. Os adeptos querem que a sua equipa ganhe. Por 1-0, chega. Enquanto no futebol se espera a chegada de um golo com a paciência de um camponês, no basquetebol, que inspirou algumas destas ideias absurdas, vive-se a excitação permanente das cifras altas e ganha-se por acumulação de pontos, como nas máquinas de "flippers". Aí, um golo é apenas um piscar de olhos dentro da velocidade crepitante do jogo. Já a memória futebolística, essa é capaz de guardar para sempre a execução de um golo.

Depois de Havelange, que transformou a FIFA numa agência de negócios, e da era de corrupção de Blatter, só nos faltavam estes bárbaros pós-modernos, mais o seu frenesim de melhoramento e mudança. Se os deixassem, estava ali gente para aperfeiçoar a Mona Lisa, corrigindo aquele sorriso demasiado enigmático.